terça-feira, 9 de setembro de 2008

5.ª, 6.ª e 7.ª Jornada do Internacional de Guimarães - Igor Pires, Marcos Ribeiro e Ana Meireles

A parte final do Torneio não me correu lá muito bem. Estive preguiçoso no tabuleiro, incapaz de grandes cálculos, e senti-me um pouco cansado, talvez devido ao acumular de poucas horas de sono, algumas de condução e vários jantares à base de fatias de bola e/ou tostas mistas.

Mas mesmo assim houve coisas boas. Gostei muito da partida que perdi com a Ana Meireles e, no sábado, joguei pela primeira vez uma jornada dupla em ritmo clássico. Como suspeitava é violento. :) Nas últimas jornadas fui emparceirado com jogadores sérios e acabei por passar por dificuldades em todas as partidas (como, aliás, acontecera em várias das anteriores), tendo feito 1/3 o que foi menos um ponto do que esperava.



5.ª Jornada - Igor Pires

Já imaginava que o jogo com o Igor seria complicado. Durante a época joguei com ele duas vezes, também de negras, e nunca me tinha dado muito bem com as suas aberturas. Além disto, o Igor aborda as partidas com muita seriedade e no final da partida partilha sempre os seus planos e profundidade de análise. Ele vê umas coisas :)

Treinado pelo Mestre Nacional Stephane Silva, o Igor ainda oscila bastante nos seus resultados, sendo capaz do melhor e do pior. Acho que quando conseguir ser mais constante, vai dar um salto grande, que a qualidade já se vê ao longe. O resultado que este sub-18 da Associação Estamos Juntos (S. João da Madeira) conseguiu no Nacional da categoria é sintomático: 8.º classificado entre pares tão ilustres como o MF Ruben Pereira, a MF Feminina Ana Baptista ou Rafael Teixeira.

Na nossa partida fiz um lance horrível - só não foi o meu pior do torneio porque com a Ana Meireles ainda consegui melhorar a minha mediocridade :P - e o castigo não se fez esperar:



15. ... Dd7??


Ao que o Igor replicou com o avanço do peão ciclista de F que quando chegou a f6, em 3 lances apenas, resolveu a partida. 1-0 sem espinhas!


6.ª Jornada - Marcos Costa Ribeiro

No sábado à noite, joguei com o Marcos Ribeiro, um jovem xadrezista que alinha pelo Operário. Facilitei um bocado, avançando peões na ala de dama em vez de rocar, brincadeira que me podia ter saído cara:



Nesta posição, no tabuleiro, receava que as negras jogassem 16. ... Cxd2!?
(com ideias de entrar com o Cf6 em e4; Bispo em b4 para forçar c3; capturar a Tb1 depois de Cxc3; ou então dar um duplo com o Ce4...)


Mas o Marcos optou por 16. ... Cc5 o que me permitiu jogar 17. f5 e agora as brancas não têm problemas.
Seguiu-se 17. ... exf5 18. Cdxf5 Bxf5 19. Cxf5



E agora 19. ... Bc7 já deixou as negras mal depois de 20. 0-0 e 20. ... Cxa4 foi demasiado guloso.



21. Ce7+ Rh8 22. Bxf6 Dd6...



... as negras ameaçam mate mas a Dama já não vai a lado nenhum: 23. Bxg7+
1-0
(se 23. ... Rxg7 - única -, então 24. Cf5+ seguido de 25. Cxd6)



7.ª Jornada - Ana Meireles

Terminei o torneio com uma jogadora da casa, a Ana Meireles, dos Amiguinhos do Museu Alberto Sampaio, de Guimarães.



A Ana, apesar de ser sub-14, está habituada aos títulos. Tricampeã do distrito de Braga e actual campeã nacional do seu escalão, já tinha tido oportunidade de jogar com ela, em ritmo semi-rápido, no torneio do Granito, em Vila Pouca de Aguiar, partida em que esteve melhor, mas em que um erro no meio jogo deitou tudo a perder.

Nessa altura fiquei com a impressão de se tratar de uma xadrezista sólida com excelente margem de progressão, além de ter uma atitude muito afável e desportiva. Impressão que renovei na tarde de domingo.



A nossa partida foi digna do Grande Neca que sou. Ao fim de 5 falhanços, incluindo uma combinação de mate, a Ana cansou-se de me dar abébias e partiu para um final de partida muito seguro que me fez vergar o Rei.


Nequice n.º 1



9. ... Bd4 10. Cc4 b5 11. c3 bxc4 12. cxd4 cxd3 -+
(joguei 9. ... Dd4)


Nequice n.º 2



13. ... b5 14. Ce5 (14. d4 Bxc2 - possível devido ao mate em f1) Bxe3
(joguei 13. ... Bg4)


Nequice n.º 3



16. ... Bh3!! (O Jorgievsky viu logo esta nas análises)


A) Se 17. gxh3 De4+ 18. Rg1 Dg6+ 19. Rh1 Tf2 20. Dg1 De4+ 21. Dg2 Dxg2#
B) Se 17. Cc3 Bxg2+ 18. Rxg2 (Rg1 Df2#) Tf2+ 19. Rg1 Dxh2#
C) Se 17. Dg1 Bxg2+ 18. Dxg2 (Rxg2 Dg4+ 19. Rh1 De4+ 20. Dg2 Tf1#) De1+ 19. Dg1 Tf1

Joguei 16. Be2.




Nequice n.º 4



17. ... Bxd4 18. exd4 bxc4
(joguei 17. Be7)


Nequice n.º 5



23. ... h5! - plano do José Padeiro, nas análises: as brancas não se podem mexer...

(joguei 23. ... Df4??? e perdi a torre depois de Rg1)


Na próxima semana, a Ana vai jogar o Campeonato da Europa de Jovens. Que vá motivada mas que não pense que será assim tão fácil :)

4.ª Jornada do Internacional de Guimarães - António Matos


À quarta jornada encontrei o António Matos, com quem já tinha jogado esta época, mas em ritmo semi-rápido, primeiro em Santo Tirso, depois na Bonjóia.



Tal como nas partidas anteriores, o Matos vendeu bem cara a derrota.



Nesta partida de Guimarães estive em muitos maus lençóis.



Posição depois de 27. Cxe4.


Agora 27. ... exd4 deixa as negras muito bem: o Ce4 continua ameaçado e não pode fugir pois ficou pregado, e está latente a ameaça d3 (ataca directamente o Bispo e, a descoberto, a Ta1).

Infelizmente para o Matos, felizmente para mim, com a pressão do tempo a partida prosseguiu com uma variante inferior para as negras e depois de 27. ... dxe4 28. dxe5 Bxe5, joguei 29. Bb3+


Aqui o Matos equivocou-se: 29. ... Bd5 30. Td1 e as brancas ganharam material.


Pelo que tenho sentido da sua evolução, tenho dúvidas que em 2008/2009 me consiga manter invicto contra o António Matos.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

GM António Fernandes é (outra vez) o novo Campeão Nacional!



O GM António Fernandes é o novo Campeão Nacional Absoluto de Xadrez. Seguiram-se o MI Diogo Fernando e o GM Luís Galego. Jorge Cruz, com uma participação meritória, não conseguiu contrariar o sistema de Elo e encerrou a tabela classificativa.

A notícia foi avançada em primeira mão pelo Viriatovitch e na Ala de Rei, e começa a circular timidamente por aí, embora sem grandes pormenores ou destaques, tendo já chegado à Revista Portuguesa de Xadrez e ao blogue do Moto Clube.

No site da Federação Portuguesa de Xadrez não há uma linha nem, tão pouco, a ligação para a página da prova. Sobre a lipoaspiração que aquele site sofreu, já o Francisco Vieira assinalou a "desorganização existente" e "o suplício [que era] encontrar certos documentos". Que, todavia, apesar da "limpeza", poderá continuar, pois os dois artigos disponíveis neste momento continuam sem ter data de publicação nem/ou identificação da versão. Se forem substituídos só por artes mágicas é que se dá conta, dificuldade que já tenho sentido.

Mas adiante.

Se no meio escaquístico a projecção é esta, temos que ficar agradados com o que se passa no main stream:


No Jornal da Tarde da RTP, uma nota de rodapé durante as peças principais, como por exemplo esta.




O Jogo Online publicou, há sensivelmente uma hora, a notícia seguinte:

António Fernandes renova o título nacional
O grande mestre António Fernandes sagrou-se campeão nacional de xadrez, conquistando o título pela décima segunda vez, ao vencer o mestre internacional Diogo Fernando. António Fernandes, do GX Gaia [sic], apenas perdeu uma partida, por tempo, com José Andrade na jornada inaugural, numa altura em que se encontrava em vantagem posicional, vencendo todos os restantes adversários no campeonato. Com esta vitória no campeonato nacional de 2008, António Fernandes está a um título de igualar o recorde de mestre Joaquim Durão, que por 13 vezes foi campeão nacional da modalidade.


O extensíssimo curriculum do GM António Fernandes pode ser consultado na "História do Xadrez de Competição em Portugal".

Tabuleiro do Xadrez Político Nacional



A inauguração da Festa do Avante! representa o movimento de abertura no tabuleiro do xadrez político que os comunistas vão jogar nas próximas semanas com o Governo socialista, a um ano de eleições autárquicas e legislativas.

Notícia completa aqui.



Peões, jogadores ou claque do xadrez político?


Carvalhesa
Por Ruben Carvalho (Julho 2001) no site do PCP

Em Março de 1985 a Comissão Política do CC do PCP criou um grupo de trabalho com o objectivo de se tentar criar um tema musical para a campanha eleitoral para as eleições legislativas desse ano e que desse identidade sonora às diversas manifestações, desde os carros de som até aos indicativos de tempos de antena.

A primeira ideia dessa equipa foi a de encontrar um tema de música tradicional portuguesa a que se pudesse dar um tratamento instrumental no estilo do que entretanto se começara a chamar MPP, Música Popular Portuguesa. Vivia-se então um momento de grande criatividade em termos de música popular, na esteira de Zeca Afonso e Sérgio Godinho, os trabalhos dos Trovante, de Júlio Pereira, de Fausto tinham criado uma sonoridade tão nova quanto portuguesa e que conseguia um resultado inteiramente surpreendente: conquistava público em todo o País e em todas as áreas culturais. Pelas suas raízes no folclore despertava eco nas audiências culturalmente fixadas em raízes e padrões rurais com a mesma facilidade com que desencadeava o entusiasmo de plateias juvenis que de bom grado trocavam a batida rock por surpreendentes linhas rítmicas bebidas em adufes e Zés-Pereiras.

(...)

O facto não é estranho. Como se afirma nas notas do «Cancioneiro», «a "Carvalhesa", dança de quatro laços, era, com a "Murinheira" e o "Passeado", o baile preferido da região. O instrumento tradicional a acompanhar estas danças era a gaita de foles». Ou seja, a «Carvalhesa» é essencialmente uma dança, para a qual se conhecem duas melodias, mas que poderá mesmo ter sido dançada com outras entretanto perdidas. Face às duas versões, Giacometti entendeu ser mais interessante a recolhida por esse compositor alemão que fora o ausente cicerone da sua descoberta de Portugal. E, página 217 do «Cancioneiro, tema 166, lá ficaria a «Carvalhesa» recolhida por Kurt Schindler.

O arranjo da «Carvalhesa» gravado em 1985 acompanhou a actividade política do PCP em sucessivas campanhas eleitorais, na Festa do «Avante!», cujos palcos sempre abre e encerra e dos quais se tornou verdadeiramente emblemática.

Genérico da telenovela "Amor e Intrigas"

Há pouco, enquanto almoçava, reparei no genérico da telenovela que a RTP 1 passa ao início da tarde, depois do Jornal da Tarde.

Segundo a Wikipédia, "Amor e Intrigas" foi uma telenovela brasileira produzida e exibida pela Rede Record entre 20 de novembro de 2007 e 22 de julho de 2008.

Curiosidades:

- "O jogo do bem contra o mal nunca foi tão intrigante. Seu destino é você quem escreve." Com esse simples slogan, a Record deu largada na divulgação da sua nova novela. Intensas divulgações invadiram a telinha da Record. Primeiro com simples teasers, depois apresentando os personagens e por fim, chamadas de história e de elenco.

- A empreitada de propaganda da novela, na mídia em geral, foi encargo da agência de publicidade DPZ que trouxe grande parte do elenco em cima de um jogo de xadrez. A criação foi de Ricardo Velloso e Rodrigo Leão, com direção de Fernando Rodrigues e Francesc Petit.


O xadrez é um dos temas principais do genérico de abertura de cada episódio:

3.ª Jornada do Internacional de Guimarães - José Padeiro


Ao terceiro dia, subi à primeira mesa para experimentar brevemente os tabuleiros de madeira. Se "para lá do Marão mandam os que lá estão", um bocadinho antes, em Guimarães, "no primeiro tabuleiro quem manda é o Padeiro".


O meu adversário de ontem dispensa apresentações. Atleta federado que nunca tenha ouvido falar nele tem que se cultivar com urgência. Até porque nem só de posições vive o xadrez e o Padeiro, além de ser indiscutivelmente um dos melhores jogadores do Porto (quiçá mesmo o melhor), é cinco estrelas.

De qualquer maneira, passando ao lado de ser actualmente o 24.º jogador do top português com 2248 pontos, de jogar numa das melhores equipas nacionais - a Academia de Xadrez de Gaia - mas também da Corunha - Ajedrez Kasparov Marcote - uma consulta ao site "História do Xadrez de Competição em Portugal", de Fernando Castro (que é o organizador deste Internacional de Guimarães), faz ressaltar, por mais significativos, o título de Campeão Nacional em ritmo Semi-Rápido (2005) e o 3.º lugar no Nacional Absoluto (2002).

Já nos Distritais de Jovens, o Padeiro fartava-se de dar tareia no resto da malta. Aliás, eu já não lhe ganho há mais de uma década! Notem o "já não" =D pois quando ele apareceu, ainda imberbe, limpei-lhe as peças (estava ele a "treinar" no escalão acima do seu). Só que foi só na sua primeira temporada. A partir daí, passou-me a acontecer o que sucede à generalidade dos xadrezistas que jogam contra ele: apanho no toutiço!


Num Campeonato Nacional de Jovens jogado, salvo erro, em Silves, em meados de 90.
O Padeiro analisa com o Quintã. O Rui Guimarães está ao centro e, entre ele e o Quintã, está o João. Por trás, de perfil, o Rui Branca.


O que me aconteceu na partida com o Padeiro foi o que o povo normalmente designa, aqui com maior propriedade, por "toma lá que já almoçaste". O Padeiro deixou-me a pão e água, nem umas bolachinhas de água e sal me arranjou, e terminou a partida em grande estilo:



24. Ba4!


Pode seguir-se:
24. ... Dxa4 25. fxg7+ Rxg7 (se Rg8 Df7#) 26. Dg5+ Rh8 27. Tf7 Tg8 28. Df6+ Tg7 29. Dxg7#


Ou como me disse a minha mãe, que não sabe muito de xadrez mas tem aquele saber que todas as mães têm, "Então o Padeiro meteu-te no forno, hein?". Foi isso, foi. :)

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

2.ª Jornada do Internacional de Guimarães - António Mendes (Batalha de S. Mamede)



Continua a decorrer na freguesia de Oliveira do Castelo, em pleno coração medieval do berço da nacionalidade, a V edição do Torneio Internacional de Guimarães.
Na segunda jornada defrontei o António Mendes, do Moto Clube do Porto / ALPI-Portugal, que é um xadrezista com quem gosto muito de jogar, já que as nossas partidas costumam ser muito combativas.



Esta não foi excepção: com muito sangue, suor e esforço, e apuros de tempo para todos os gostos (o António foi mais do que uma vez à casa dos 2 segundos; eu fiquei "longe" nos 20 ou 30), penso que a nossa refrega não terá defraudado o espírito dos homens de D. Afonso Henriques que eventualmente se passeassem, ontem à noite, pelos claustros do Museu Alberto Sampaio. No ano em que se celebram os 880 da Batalha de S. Mamede (24 de Junho de 1128), as marteladas de dois portuenses (S. João do Porto, celebrado de 23 para 24 de Junho), no tabuleiro, talvez tenham sido dadas no local mais apropriado.


Batalha de S. Mamede, retratada por Acácio Lino (1922), exposta na Assembleia da República, na sala daquele artista, local de trabalho dos grupos parlamentares.



Felizmente, acabei por ser o D. Afonso Henriques, e o Mendes a minha mãe ;)


Mas além do teor do jogo de ataque, de choque e de confronto, a partida também se adequou ao momento e ao espaço, temática e tecnicamente. (dando de barato que um Grande Neca percebe alguma coisa de xadrez técnico - se alguma vez uma partida minha fosse anotada por alguém que perceba do jogo, duvido muito que terminasse com um dos chavões habituais, como "e agora está ganho. É uma questão de técnica.". Quando muito diria, antes, "estava ganho, mas largou!")


Tematicamente porque o António Mendes acabou por jogar num esquema Stonewall, literalmente Parede de Pedra. Não me lembro de sistema mais adequado para jogar junto ao castelo de Guimarães.



Tecnicamente porque a minha estrutura de peões tinha alguma semelhança com as muralhas vimaranenses.






Após o 17.º lance, aqueles nossos peões estavam assim encaixados



numa partida que se jogou, também ela, encaixada nos planos da Juliana Chiu


Somos os da esquerda, eu de frente, o António de costas.
Como habitualmente, todas as fotos da prova foram tiradas pela Juliana Chiu e "roubadas" via blogue do MCP / ALPI - Portugal.


assim


e deste modo:



Desafio 1 - Lance 24: Qual é a melhor continuação para as brancas?

Desafio 2 - Lance 29: Como é que as negras igualam a partida?




Entretanto o Bruno (o segundo com as brancas, a contar do fundo) estreou-se a vencer e leva 1/2. Como ele ainda não me arranjou as suas partidas, tenho apenas uma foto da fotógrafa habitual.


O segundo com as negras, a contar da esquerda, é o Ivo Dias que também ganhou.


Logo à noite já empurro madeira. Vou à mesa 1 visitar o Padeiro :)

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

1.ª Jornada do Internacional de Guimarães - Ivo Dias

Disputou-se a noite passada a 1.ª Jornada do V Torneio Internacional de Guimarães, nas instalações do Museu Alberto Sampaio.

A Sara fez de taxista e foi-me buscar, pelo que consegui estar às 20h20 à porta do Guinapo que não teve horário mais flexível: também recém-chegado do seu emprego, encontrava-se a terminar o jantar, pelo que estacionei e saquei do saquinho providencial que a minha mãe me deixara no carro e ataquei sem pudor 3 rissóis e 2 croquetes, regados com iogurte líquido.
Coisas menores para um bom garfo, que era noite de xadrez.

Seguimos viagem sem percalços - a consulta ao Via Michelin foi proveitosa - mas quando chegámos a Guimarães passámos mesmo à porta do Museu e não demos por ele! Foi necessário socorrermo-nos da simpatia vimaranense e depois de certeiras orientações, rumámos para o local de jogo.

Para trás ficou o carro, estacionado em lugar reservado à Relação, e o arrumador que grunhia qualquer coisa como "Se não fosse noite havia moedinhas para o parquímetro..."

Chegados ao Museu com o atraso da praxe (cerca de 20 minutos, salvo erro), primeiro contacto com a arbitragem - pelo omnipresente Vitorino Ferreira - e com a organização da prova, ocasião para perceber o que se havia passado com a minha inscrição em representação do GXP: quando enviei o email indiquei o meu nome, idade, n.º fide e elo, esquecendo-me do clube. O Senhor Fernando Castro reconheceu o apelido e juntou-lhe o clube... apelido do Joaquim (Brandão de Pinho), presidente do GX Porto, o mesmo mas não o meu. =D

Entretanto, um olhar rápido para o emparceiramento apenas para descobrir que jogava de negras, na mesa 14, contra o Ivo Dias. O nome não me dizia nada e calculava que deveria ser um adversário à volta do 65.º lugar do ranking inicial, logo com um elo a rondar os 1400.

Quando cheguei ao tabuleiro, esperava-me apenas o peão de rei, avançado duas casas. Repliquei simetricamente, preenchi a folha de registo e aguardei a presença do meu adversário que não tardou em comparecer.

O Ivo é um rapaz novo, com ar simpático e olhar arguto, que me pareceu entre o surpreendido e o desconfiado com o meu equipamento desportivo - a "farda" profissional. Jogámos uma variante pouco comum da Espanhola que ele não conhecia e me deu alguma vantagem inicial. Mas não foi preciso muito para eu perceber que à minha frente estava um daqueles "miúdos" cuja progressão xadrezística anda 3 vezes mais depressa do que o sistema de Elo permite monotorizar. De tal maneira que, já no meio-jogo, me levantei para espairecer e ver na lista de inscritos de onde era aquele jogador que me estava a morder os calcanhares.


A posição não era muito clara - pelo menos para mim :) - e suscitou interesse em alguns dos espectadores que deviam estar a torcer, como eu muitas vezes faço, pela surpresa do xadrezista com menos elo. Este retrato da Juliana Chiu é sintomático: algumas espreitadelas, o Ivo seguro a olhar para mim com ar guerreiro e desafiador, eu agarrado aos neurónios o mais que podia...

Indo ao que interessa, parece-me que a posição em que demorei mais tempo a jogar foi esta:



O Ivo tinha acabado de jogar 10. d3 (nas análises disse-me que hesitou entre este lance e 10. f3 que talvez não fosse pior) e o seu objectivo pareceu-me claro: queria o meu peão de e4 que estava pregado. Felizmente, as minhas hipóteses eram reduzidas e obrigatórias: ou defendia o peão ou o sacrificava.

Hesitei até à última e acabei por defender com 10. ... Bb4. Mas era possível prosseguir de forma mais arrojada de acordo com o plano inicial (8. ... Bc5).
DESAFIO A - Como é que as negras podem explorar a coluna semi-aberta de F e pressionar o peão de f2? Conseguem ver o que eu não vi? Respostas por mail ou nos comentários.

Deixei passar a oportunidade de atacar f2 em segurança e, quando o fiz, a coisa podia ter dado para o torto...




Na dança das trocas, depois de 14. ... exd3 15. Txd3 Cxf2 16. Cxf2 Dxf2, o Ivo continuou na onda e jogou 17. Dxf2. (bem, na verdade, não foi bem assim: mesmo nas análises, ele optou sempre por variantes que retiravam as Damas do tabuleiro, o que lhe dá mais segurança mas, ao mesmo tempo, diminui as possibilidades de atacar o Rei adversário, pelo que este lance deve ter sido uma jogada reflectida.)
DESAFIO B - Com esta "diz-que-é-uma-espécie-de-dica", consegues arranjar um plano melhor para as brancas que deixe as negras em apuros?


Alguns lances mais tarde, num final complicado de Torres com Bispos de cor contrária e muitos peões, o Ivo optou por um bom plano (ganhar espaço, avançar os peões e protegê-los do Bispo adversário) que só não funcionou porque as negras tinham uma surpresa táctica. Consegues descobri-la?


As brancas acabaram de jogar 28. c3. As negras jogam e ganham vantagem decisiva. Como? (DESAFIO C)



A noite desportiva acabou na zona reservada às análises, onde confirmei que o Ivo tem pinta de xadrezista.


Regressado a casa, ainda houve curiosidade para passar a partida no computador e ver se conhecia mais qualquer coisa sobre o meu adversário.


Ivo Dias, enquanto jogador do Externato Leonardo da Vinci, Braga


Quando, durante a partida, fui ver qual era o seu clube e me deparei com o Núcleo de Xadrez Vale S. Cosme - Didáxis, lembrei-me logo do Mário Oliveira e pensei que se calhar seria melhor aliviar o nó da gravata. É que por aquelas bandas não se brinca.



Suspeitas que confirmei ao chegar a casa. Depois de um estágio de preparação com o Caramez, em Julho, o Ivo terminou o III Torneio Fechado do Vale com apenas 3 derrotas em 9 partidas.



E, apesar de ser sub-10, tem já um curriculum recheado: Vice-Campeão Regional Norte de Xadrez Escolar 2008, Campeão Distrital Escolar na categoria Infantil A (sub-12), vencedor do torneio Sá de Miranda, 1.º sub-10 no V Torneio Sub-20 da Escola João de Meira, entre outros...

Parece-me que o 5.º lugar no Nacional Sub-10 vai ser para melhorar (brevemente)!



Parece-me que qualquer dia deixa de pedir autógrafos (na foto, Catarina Guerra e Costa) e passa a ser ele o requisitado.

V Torneio Internacional de Guimarães






Os Amiguinhos do Museu Alberto Sampaio estão a organizar a quinta edição do Torneio Internacional de Guimarães que decorrerá, até dia 7 de Setembro, naquele Museu do centro histórico da cidade.


Carrega para aumentar.


Como podem ver, o Museu dá praticamente para o Largo da Oliveira. Trata-se de uma zona emblemática e muitíssimo bonita de Guimarães, essencialmente pedonal e recheada de esplanadas, com muita vida nocturna e que tem sido falada devido à instalação de câmaras de segurança.

Para quem não conhece, à míngua de outras câmaras, passando a publicidade - que está bem feita -, aqui ficam uns planos do Largo com excelente banda sonora:



O bom ambiente continua no interior do Museu Alberto Sampaio que foi "criado em 1928 para albergar as colecções da extinta Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira e de outras igrejas e conventos da região de Guimarães, que até então estavam na posse do Estado" e "possui importantes colecções de escultura que cobrem o período medieval e renascentista até ao século XVIII, bem como colecções de ourivesaria e pintura".



Felizmente, a Juliana Chiu esteve presente na sessão inaugural da prova, pelo que podem constatar que não estou a faltar à verdade (via Blogue do Moto Clube do Porto):





A prova conta com a participação de 102 xadrezistas (de 4 nacionalidades: portuguesa, espanhola, inglesa e russa), em representação de 21 clubes (de 4 associações distritais: Braga, Bragança, Coimbra e Porto).

Os tabuleiros estão espalhados por salas contíguas do museu, perfeitamente integrados naquele ambiente secular.



Pessoalmente, até ao momento, o único senão é o facto de haver pouca madeira e muito plástico (ainda por cima o meu tabuleiro estava meio enrolado e joguei com peças pequenas - pois, levo jeito para rezingar :) - cfr. foto mais abaixo)



Mas tal é bem superado pela quantidade, qualidade e simpatia dos participantes. Além de imensos sub's, disputam a prova 8 xadrezistas do top-100 nacional: José Padeiro (2248, 24.º classificado do ranking português), Stephane Silva (2212, 31.º), André Viela (2200, 33.º), Henrique Castro (2196, 35.º), Ariana Pintor (2165, 43.º), Luís Machado (2076, 83.º), Rui Azevedo (2061, 91.º) e António Caramez (2048, 97.º). Por outro lado, há que contar ainda com jogadores da valia de António Lago (2160 FPX) ou Anatoli Khodorov (2127) e, bem assim, alguns jogadores que estão em franca progressão como o Jorge Viterbo Ferreira (2002 - deverá sair perto dos 2100 em Outubro).

Quanto a nós, estaremos representados também pelo Bruno Guinapo e, apesar de só sermos dois, é para ficar a meio da tabela na classificação colectiva! =D E embora Guimarães não fique muito longe e os jogos começarem às 21h00, como vem sendo hábito :( vamos jogar com a barriga menos cheia que vazia, por vezes atrasados e ainda "fardados".



Nada que tire o entusiasmo ou a crença em algumas boas partidas.
Tudo pronto, pois, para um bom torneio.


Aguçado pelo que se sabe da edição anterior...



Ver notícia da Guimarães TV