Há uns tempos, num dos torneios de rápidas do Convento dos Gatos, o José Margarido estava a jogar com o Martinho Cardoso (na foto) e ficou muito admirado quando este o informou que não poderia usar as duas mãos para efectuar uma captura.
Apesar da surpresa - "Nunca ninguém me disse que não podia comer assim" -, os presentes avalizaram a opinião do Presidente do Conselho Distrital de Arbitragem.
Talvez tenhamos que internacionalizar o nosso árbitro porque lá fora andam com as mesmas dúvidas... ;)
Quantas mãos podem ser utilizadas no xadrez rápido?
O evento é o Torneio Hypercube, organizado pelo Clube de Xadrez de Utrecht, na Holanda. Participam 130 jogadores (8 GMs, 12 MIs e 14MFs) com um média de 2100 pontos (!!!) que disputam prémios no valor de € 3000,00, € 1000,00 para o primeiro classificado. A taxa de inscrição é de € 5,00 e o ritmo das partidas é de 5 minutos por jogador.
Supercube Blitz Utrecht, 21.03.2009
Nesta posição, as negras apercebem-se que o seu lance anterior - ... e4 - foi um erro e que iriam perder um peão. Rapidamente fazem recuar a sua Dama, primeiro para b7, depois para e7, quando, com ambos os jogadores em apuros de tempo, uma situação bastante caótica ocorre. As negras levam um duplo de Cavalo e perdem a Dama, deixando Anish Giri em vantagem. Neste momento, Epishin apresenta um protesto: alega que o seu adversário utilizou as duas mãos para realizar o lance.
Vários espectadores estavam a observar a partida e [qual Juliana Chiu ;P], Robert Beekman fotografou o momento em que o lance foi efectuado. Na imagem pode ver-se que Anish retirou a peça capturada com a mão esquerda e moveu a peça atacante, a Dama, com a direita. Depois accionou o relógio também com a mão direita.
Epishin chamou o árbitro enquanto carregava no seu botão do relógio. Anish tentou baixar o seu botão, mas não teve hipóteses contra o pujante GM russo, pelo que optou por parar os relógios, numa altura em que as negras tinham 26 segundos e as brancas 11. O árbitro decidiu que Anish não deveria ter jogado com as duas mãos e que, como penalização, o seu adversário deveria receber dois minutos extra. Anish protesta igualmente, alegando que deveria receber 5 segundos, uma vez que o seu tempo baixara até aos 11 por o seu adversário manter o seu botão pressionado. Pretendia ficar com 16 segundos no relógio, o árbitro propôs 14 e o adversário não aceitava nenhuma das soluções. Neste momento Anish propôs empate e Epishin aceitou de imediato.
O GM Epishin conta a sua versão.
Anish conta à Chess Base como fez a captura.
Então, o que é que eu fiz mal?
A Chess Base encontrou duas regras contraditórias
(que ainda por cima são dos Estados Unidos, quando a prova se realizou na Holanda...):
- As regras de xadrez rápido da Federação dos Estados Unidos (artigo 4.º) determinam que, por regra, o jogador deve carregar no relógio com a mão que moveu a peça, sendo que podem ser utilizadas as duas mãos para fazer roque, capturar uma peça ou realizar a promoção do peão;
- As regras da Associação do Noroeste - redacção de Março de 2004, por seu lado, estipulam, expressamente, que podem ser utilizadas as duas mãos para fazer roque, mas só uma para realizar capturas, prevendo até as sanções para quem utilizar as duas mãos: aviso, no caso da primeira infracção; sanção de um minuto, no caso da segunda; derrota, na terceira infracção.
Por cá, parece que teremos que ir às Regras da FIDE. E na versão portuguesa (Conselho Nacional de Arbitragem - Valente, Brandão de Pinho e Oliveira Dias), publicada no site da FPX, pode ler-se no artigo 4.º, n.º 1, epigrafado "O Acto de Mover as Peças", que "cada lance tem que ser feito só com uma mão", sendo que nos termos do seu n.º 6, alínea a), "o lance é considerado feito (...), no caso de uma captura, quando a peça capturada tiver sido retirada do tabuleiro e o jogador, após colocar a sua própria peça na nova casa, a tiver largado".
Isto é, como ensinou o Martinho Cardoso, para tomar uma peça, um jogador tem que utilizar a mesma mão para retirar a peça do adversário do tabuleiro e colocar a sua na casa em que aquela se encontrava.
E isto independentemente do ritmo da partida, pois que esta regra se aplica ao xadrez semi-rápido (artigos B.2 e B.5) e ao xadrez rápido (artigo C.2).