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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Doping: da ética da modalidade à ética dos dirigentes - Phelps condenado pelo Big Brother da natação.





A Federação Estado-Unidense de Natação emitiu ontem um comunicado a actualizar a sua posição sobre o caso da fotografia de Michael Phelps que foi tratado aqui.

Diz qualquer coisa como:

Ao abrigo do seu Regulamento de Disciplina, a Federação condenou Michael Phelps na cessação de atribuição de apoios financeiros e na suspensão de toda a actividade desportiva por um período de três meses.

Não se trata de sancionar a violação de uma norma antidopagem, mas sim de enviar uma forte mensagem ao atleta, uma vez que desapontou muita gente, em particular as centenas de milhar de jovens nadadores filiados nesta Federação que o tomam como exemplo e herói.

O atleta aceitou voluntariamente esta sanção e assumiu o compromisso de, no futuro, se comportar de modo a recuperar a nossa confiança.


Ou seja, Phelps não violou as normas antidopagem, as quais concretizam a Ética (conceito relativo que é) e os valores respectivos que a Federação de Natação verteu nos seus regulamentos.
Todavia, ainda assim, levou uma castanhada de 3 meses e alguns milhares de dólares porque a polícia de costumes lá do sítio entendeu que aquele comportamento (numa festa privada) desapontou muita gente...
A partir de agora, de certeza que só atravessará as ruas na passadeira e quando o semáforo estiver verde, não vá desapontar alguém. E em casa comerá a sopa toda, não vá alguém fotografar o prato.

Manter esta espada de Dâmocles sobre a (in)aceitabilidade do comportamento social dos atletas é, no mínimo, polémico. Quem viu logo mais longe foi José Manuel Constantino que terminou o seu texto no Colectividade Desportiva desta forma: Um bom poeta é apenas uma pessoa que escreve bem poesia. E por escrever bem poesia não tem que ser uma boa pessoa. Pelo menos um exemplo a seguir pelos outros. Por que razão com os desportistas terá de ser diferente?


A espada também paira sobre as nossas cabeças: são consideradas infracções disciplinares os actos notórios e públicos que atentem contra a dignidade e a ética desportiva - cfr. os artigos 13.º, alínea d), e 14.º, alínea f), do Regulamento de Disciplina da Federação Portuguesa de Xadrez. Ver também o artigo 12.º, n.º 2, alíneas c) e d).

O preenchimento dos conceitos "actos notórios e públicos" (que tipo de actos? em que circunstâncias são relevantes?), "dignidade desportiva" e "ética desportiva" não é fácil, pois são conceitos indeterminados cujo conteúdo e extensão são, em larga medida, incertos, apesar de parecerem apelar a preenchimentos valorativos objectivos.

E não se pense que é só teoria. Tais actos podem muito bem aparecer, por exemplo, num relatório de arbitragem, e daí aos conselhos de disciplina ou jurisdicionais, é um ápice...

(No entanto, o caso de Phelps parece ser diferente. O acto nunca constaria de um relatório de arbitragem e parece não ser "público" - ele fumou numa festa privada. Pública é a divulgação da foto numa revista. E é por causa desta publicação - que, ao que consta, ele tentou evitar, oferecendo dinheiro para que fossem alterados os critérios editoriais - que o atleta é punido, o que não deixa de ser caricato.
Além de que, claro, se fosse xadrez, o Ivanchuck, perdão, o Phelps, safava-se, pois não há a pressão dos patrocinadores.)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Doping: A mesma substância, diferentes situações, diversos regulamentos, distintas consequências.



Phelps, super-campeão olímpico, fumou fora de competição. Não sancionado.


Escreve Nuno Filipe, n'O Jogo de hoje:

Dois dias após a publicação das imagens em que surge a fumar cannabis numa festa universitária, e meras 24 horas após o seu público pedido de desculpa, acompanhado de uma manifestação de arrependimento, Michael Phelps pôde respirar de alívio com o comunicado do comité olímpico do seu país: "Michael Phelps é um grande campeão olímpico. Pediu desculpa pelo seu comportamento pouco apropriado e não temos razões para duvidar da sinceridade do seu arrependimento e do seu compromisso para continuar a agir como um verdadeiro modelo".

Refira-se que na altura a que as fotografias supostamente se reportam (Novembro) Phelps estava no gozo de um merecido período de repouso (só regressou aos treinos em Janeiro deste ano) após os Jogos Olímpicos, onde conquistou as inéditas oito medalhas de ouro. Por outro lado, a ingestão de cannabis fora da competição nem sequer está proibida pelos regulamentos da federação internacional (FINA), pelo que mesmo que se prove a veracidade da ingestão da substância nada poderá suceder desportivamente a Phelps. (...)
- notícia integral aqui.



Um dos melhores saltadores nacionais teve dois resultados positivos quanto à mesma substância.
Sanção: anulação dos resultados, sem repreensão, multa ou suspensão.


No mesmo jornal, em peça assinada por A.F.:

"O (...) melhor especialista de salto com vara português, teve dois resultados positivos por uso de canabinóides em duas provas da época passada. A primeira a 29 de Maio, quando saltou 5,30 m (a sua segunda melhor marca), e a segunda a 8 de Junho, dia em que fez 5,15 m. O Conselho de Disciplina da Federação de Atletismo comunicou ontem que desclassificou Edi Maia nas duas provas e anulou os dois resultados, mas não lhe aplicou outras punições."


Embora o novo Regime Jurídico das Federações Desportivas, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 248-B/2008, de 31 de Dezembro, tenha entrado em vigor no início do ano e o seu artigo 8.º, n.º 1, alínea b), determine que "as federações desportivas devem publicitar as suas decisões através da disponibilização na respectiva página da Internet de todos os dados relevantes e actualizados relativos à sua actividade, em especial, as decisões integrais dos órgãos disciplinares ou jurisdicionais e a respectiva fundamentação", no site da Federação Portuguesa de Atletismo encontrei apenas a seguinte informação:


"A Federação Portuguesa de Atletismo vem por este meio informar que por decisão do Conselho de Disciplina desta Federação, o atleta "Edi Maia", em resultado da detecção de canabinóides em amostras de urina recolhidas a 29 de Maio, durante a realização de uma prova de observação do salto com vara, e no dia 8 de Junho, durante a segunda jornada da final dos Campeonatos Nacionais de Clubes, decidiu desclassificar o atleta em ambas as competições, com base nos artºs 17º e 23º do Regulamento de Disciplina da Federação Portuguesa de Atletismo.
Como tal, foram retiradas do currículo do atleta, assim como da listagem e rankings nacionais as marcas obtidas nas supracitadas competições.
A direcção da FPA
"

Sem ter acesso à fundamentação da deliberação, não é possível analisar os seus pressupostos nem a medida da sanção. Todavia, o comunicado é claro: foram anulados os resultados desportivos e os seus efeitos no ranking, mas não terá havido, como se assinala na notícia, qualquer outra sanção. E referem-se os artigos 17.º e 23.º do Regulamento de Disciplina da FPA, aquele referente à "determinação da medida da sanção" e este às "sanções aplicáveis às infracções muito graves".
Ou seja, pelas duas análises positivas foi aplicada a sanção prevista na alínea e) - "perda de pontuação ou posto nas provas nacionais". Quer dizer: a FPA entendeu que duas análises positivas deveriam ser sancionadas apenas com aquela perda, quando disponíveis estavam também as sanções de suspensão, multa ou repreensão, entre outras.



Nós por cá, como é hábito, é que costumamos ser diferentes.
Neste post, que é uma rábula a esta notícia do Record, já se alertava para a forma pouco elegante como o Presidente "de recurso-porque não houve listas alternativas" da FPX levara para a praça pública - através de um dos maiores diários especializados e com consequências pouco abonatórias -, o nome de dois xadrezistas com processos disciplinares pendentes: um que ficou suspenso durante seis meses até ser interposto recurso que afastou essa suspensão pelos vistos ilegal (em processo na altura ainda não concluído), e outro que, vários meses passados, continua automática e preventivamente suspenso porque, à míngua de uma decisão final, continua sem ter nada contra o que recorrer.

Mas a este assunto haveremos de voltar com certeza, até porque tem todos os ingredientes para se tornar num case study: há boas hipóteses de vermos a Justiça do Estado sindicar a actuação da justiça desportiva da Federação Portuguesa de Xadrez. E, no âmbito do novo contencioso administrativo, eventualmente também no plano indemnizatório - cfr. o artigo 18.º da Lei de Bases da Actividade Física e do Desporto, bem como o regime da responsabilidade civil extracontratual do Estado e demais entidades públicas - Lei n.º 67/2007, de 31 de Dezembro.


E, porque apropósito, alguns excertos da reflexão de José Manuel Constantino, na Colectividade Desportiva:

"Michael Phelps foi apanhado a fumar marijuana. Pediu perdão pelo acto. E o Comité Olímpico Internacional aceitou o pedido de desculpas. E enfatizou, não fosse alguém esquecê-lo, que Phelps é um grande campeão olímpico. Tudo está bem quando acaba bem. E a estória podia acabar aqui. Mas se puxarmos um pouco o fio à meada algumas perguntas ficam por fazer: o que tem o COI a ver com o facto do atleta fumar ou não marijuana? E se tem qual seria a sua reacção caso o interveniente não fosse “um grande campeão olímpico”? Podemos especular. Não mais do que isso. Mas o “incidente da passa” vale mais algumas reflexões.

Uma primeira tem a ver com a medicalização do rendimento desportivo, a prescrição farmacológica e os limites legais ao que é permitido, ao que é possível de ocultar e às técnicas de despistagem e controle da dopagem. É como a fruta. Tem a sua época. Tão depressa está na agenda mediática e política como de repente sem darmos por isso hiberna como se deixasse de existir. (...)

Uma segunda tem a ver com a dimensão e responsabilidade social do “campeão”uma construção ideológica que tem muito de alvorada do fascínio pelo homem/mulher sobredotados e que as diferentes ideologias políticas, mesmo as de sinal oposto (fascismo/comunismo), incorporaram à sua maneira. A crescente comercialização do desporto e a politização do rendimento desportivo remetem essa responsabilidade social, salvo honrosas e poucas excepções, para o domínio das lógicas comerciais dos patrocinadores travestidos de “acções de responsabilidade social”. (...)

Uma terceira reflexão tem a ver com o facto de o “grande campeão”, não é por ser talentoso que deixa de ser uma pessoa. Há vida para além do desporto. O atleta porventura gosta- mas não pode tudo quanto gostaria- de beber uns copos, em alguns casos de fumar uns “charritos”e provavelmente de participar numas “raves”( de acordo com algumas noticias Michael Phelps aos 19 anos teria sido condenado por conduzir sobre o efeito do álcool).
Ser tão igual, quanto a sua vida desportiva o permite -e não permite muito – aos da sua geração parece normal. Sobre esta matéria poderemos fazer juízos de valor e em defesa dos bons princípios avançar com a condenação moral. Mas vida é o que é. E não será por a negarmos ou a escondermos que ela se altera. Uma perspectiva ou explicação monista do comportamento dos campeões é um reducionismo. E entre o ascetismo e o hedonismo cada um que escolha.
Tudo para dizer que os heróis do Olimpo afinal não são deuses. Mas herois mitificados.São seres humanos.Cujos comportamentos merecem o cuidado de os não categorizar com precipitação.Para não nos perdermos.Afinal pertencemos a uma geração que à esquerda lutou contra o modelo burguês de casamento.E hoje se tornou “progressista” ao alargar,o que antes se criticava,aos homossexuais e às lésbicas.Não sabemos o que nos espera daqui a uns anos quanto ao consumo de substâncias hoje catalogadas como “drogas”. Para já ,nós por cá, vamos sancionando.Desta feita um saltador à vara.
Maradona,Comaneci,Ronaldo e tantos outros, cada um à sua maneira, viveram os prazeres da vida.Não deixaram de ser grandes campeões.Tinham também de ser bons exemplos sociais?
Um bom poeta é apenas uma pessoa que escreve bem poesia. E por escrever bem poesia não tem que ser uma boa pessoa.Pelo menos um exemplo a seguir pelos outros.Por que razão com os desportistas terá de ser diferente?
"

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Doping: "Caso Ivanchuk" decidido.


Sem muita disponibilidade de tempo, volto ao blogue para tratar de um tema que me interessa, o da dopagem no xadrez.
Consciente de que os Desafios estão muito atrasados, tentarei actualizar tudo mais logo.



No início de Dezembro, em comentário ao post da Casa do Xadrez - "Doping in Dresden: The Ivanchuk file" -, equacionei uma hipótese para o "caso Ivanchuk" ser resolvido sem ninguém perder a face.
(Infelizmente, não é novidade para ninguém que, a este nível, a "justiça desportiva" é só uma variante da politiquice desportiva...)

A solução passava por um vício do procedimento - a ausência de notificação. A existência deste vício formal tornaria o acto ineficaz, logo inoponível ao xadrezista.

Comentei assim no dia 3:
«"This could not be implemented, since nobody was able to restrain Ivanchuk and convince him to participate."
Será que ele desapareceu antes de ter sido notificado para comparecer no controlo?
Se assim foi, está resolvido. Não há violação das normas anti-dopagem.
»

E deste modo no dia seguinte:
«Em http://susanpolgar.blogspot.com/2008/12/ivanchuk-saga-update.html:
Vassily Ivanchuk's own words are cited by Mikhail Khomich in his chess blog at Sports.ru (by the way, one of the most known chess blogs in Russian). A rough translation:
IVANCHUK: "This all seems like pure madness!! But such spectacles sometimes happen in our world. I simply left, being upset after losing a game, and did not listen to a man who I was seeing for the first time in my life, and whose identity I don't know until now. You see what a comedy it was :-)"
Source: ChessToday.net

Ou seja, diz o visado que, no depois de ter perdido uma partida decisiva na prova de clubes mais importante, num local que costuma ter muito público, media e staff a passear, não ligou a um senhor que disse não sei o quê e que ele continua a não saber quem é...
Para se safar tinha que ser pela falta de notificação... agora se isto se passou assim ou se está um porco a andar de bicicleta por aí, já são outros 500 :)
»

E hoje foi publicada a decisão no site da FIDE. De absolvição, claro! Porquê? Vício de forma no procedimento...


Decisão da Comissão de Inquérito da FIDE
Wijk aan Zee (Holanda), 21 de Janeiro de 2009

Os controlos antidopagem ainda são relativamente raros no xadrez. Contudo, têm sido efectuados em várias provas oficiais, como aconteceu durante a Olimpíada de Dresden. Infelizmente, uma elevada percentagem de controlos foram marcados para a última jornada e não havia pessoal suficiente, o que originou um erro procedimental: não foi designado um responsável pelo controlo antidopagem no encontro Estados Unidos - Ucrânia.

Após ter sido derrotado numa partida crucial para o seu país, o Senhor Ivanchuk descontrolou-se. A Comissão de Inquérito conclui que apesar do árbitro ter tentado informar o Senhor Ivanchuk, em inglês, que ele o deveria acompanhar para efectuar o controlo antidopagem, aparentemente o Senhor Ivanchuk não compreendeu tais indicações, o que é compreensível por o inglês não ser a sua primeira língua. Se houvesse um responsável pelo controlo antidopagem presente, ele teria-se dirigido ao tabuleiro do Senhor Ivanchuk logo após o final da partida e teria havido uma melhor comunicação. Neste caso, a actuação do Senhor Ivanchuk poderia ter sido diferente.
Como não houve notificação do responsável do controlo antidopagem, não houve recusa de submissão ao controlo, nos termos regulamentares.

O erro procedimental, juntamente com o estado de espírito do Senhor Ivanchuk, levou-o a, sem intenção, faltar ao controlo. Consequentemente, a Comissão de Inquérito conclui, por unanimidade, que não há lugar à aplicação de qualquer sanção.


* * *

Juridicamente imprecisa mas politicamente perfeita, salva-se a rapidez com que tudo se resolveu: menos de dois meses e sem suspensão provisória do xadrezista.

É pena que o tempo da justiça desportiva da FPX seja bastante mais lento (e a Dura Lex bastante mais dura), com os prejuízos inerentes para os atletas que se vêem emaranhados nas teias dos procedimentos antidopagem.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Austrália: xadrezista verdadeiramente dopado.


De acordo com o blogue ChessExpress, um xadrezista australiano que disputava uma prova para sub-1600 foi punido com derrota na partida e expulso do torneio depois de ter sido encontrado no quarto de banho a consultar um programa informático.

Segundo o blogue Lousy at Chess, as primeiras suspeitas surgiram depois de o atleta ter ido ao quarto de banho 6 vezes durante os primeiros 20 lances.
Informado o árbitro, este deu indicações a um auxiliar seu para também ir ao wc se o jogador voltasse a levantar-se do tabuleiro.



O site Chess Vibes informa que o xadrezista, sub-16, foi apanhado em flagrante a consultar o conhecido software ChessMaster numa PlayStation Portable.

O árbitro declarou a partida perdida e expulsou o jogador do torneio.
Este apresentou um protesto contra a decisão que foi confirmada, por unanimidade, pelo Comité de Apelo. - fonte: Chess Chat Australia

Aqui fica a partida retirada do Chess Vibes a partir do pgn do MF Brett Tindall publicado no blogue The Closet GrandMaster.



A haver regulação antidoping no xadrez, seria com este que os responsáveis mais se deveriam preocupar.

Se as regras internacionais antidopagem o permitissem, bastaria então refinar a redacção do artigo 2.º do Regulamento Antidopagem da Federação Portuguesa de Xadrez, na versão que o seu Conselho de Disciplina tem considerado em vigor -, segundo o qual já se considera "dopado qualquer praticante da modalidade em relação ao qual o resultado de uma acção de controlo antidopagem acuse (...) a utilização de (...) métodos susceptíveis de alterarem o seu rendimento desportivo (...)".

No âmbito do actual Regulamento Disciplinar da FPX, um atleta apanhado a consultar um programa informático poderia incorrer, além daquela derrota na partida e expulsão da prova, numa sanção que poderia ir da advertência por escrito à suspensão de 1 a 18 meses - artigo 41.º.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Re8-f7: !!, !, !?, ?!, ? ou ?? ?

A notícia, em versão electrónica, do diário desportivo Record, que divulgou o caso da convocatória para as Olimpíadas de Dresden, publicada há uma semana (22 de Outubro), terminava informando que "a Agência Lusa contactou a Federação Portuguesa de Xadrez, mas esta não respondeu em tempo oportuno".

Esta madrugada (29 de Outubro), foi publicada, no site do mesmo órgão de informação, nova notícia sobre o mesmo assunto, de que consta a posição do Presidente da Federação Portuguesa de Xadrez.



Sob o título "Xadrez: Olimpíadas voltam a provocar polémica" e o sub-título "Guerra de regulamentos amputa Selecção em Dresden", os dois primeiros parágrafos da notícia identificam a polémica, o terceiro (com o destaque "Absentismo" (?!)) transmite a posição do PFPX e o último parágrafo desta notícia sobre Dresden refere-se a... doping no xadrez.

(...)
Absentismo

António Bravo, presidente da FPX, diz que foi aplicada a metodologia das direcções anteriores em relação à Selecção, que nem sequer tem seleccionador, alegadamente por falta de verbas: “Voltar atrás seria uma falta de respeito pelos seleccionados. Cumprimos regulamentos. A Selecção não foi lesada porque os valores são semelhantes. A Associação de Mestres, por exemplo, nada fez para mudar os regulamentos. Sou presidente numa situação de recurso e não houve listas alternativas nas eleições. Existem locais próprios para estes assuntos serem debatidos.”
(...)




Sejam bem-vindos a mais uma tarde desportiva. A partida que tem honra de acompanhamento jornalístico não se joga no Vietname e continua a ser disputada num conjunto tabuleiro/peças pouco habitual, quiçá não homologado para provas FIDE.

Nos últimos lances, o Cavalo da Associação de Mestres manobrou calmamente, fazendo uma pausa para conversar com este, outra para ouvir aquele, mas lá capturou a torre negra em a8, finalizando a travessia Ch1-f2-d1-c3- (driblando o Bispo da Direcção da FPX que controla a diagonal b1-h7 e não deixa o Rei do GM António Fernandes aproximar-se do quadrado dos 5 seleccionados e do peão e7) -b5-c7-a8. Entretando, o Rei da FPX aguardava o início da Olimpíada para mandar promover os convocados em jogadores efectivos, jogando Re8-d8-e8-d8-e8-d8-e8 debaixo do guarda-chuva do peão e7, conhecido na bancada como "seleccionador mistério".

A razão que acompanha o Campeão em título, só aparentemente pregada pela Ta8, deslocou-se de a2 para a5 nas páginas do Record - xeque! -, e, no mesmo local, seguiu-se Re8-f7.


As negras jogam Re8-f7 nas páginas do Record


Apesar de as negras estarem com uma vantagem de tempo avassaladora - a queda da bandeira branca parece ser mesmo uma questão de dias -, este lance foi reflectido durante uma semana: as brancas deram xeque no dia 22 de Outubro e as negras responderam a 29, só depois de o Cavalo ter tomado em a8. Tal é possível porque no xadrez as regras cronológicas e temporais são próprias: por exemplo, fora do tabuleiro, o caminho mais curto entre dois pontos é em linha recta; mas o xadrez tem tempos que são só seus. Basta ver que o Rei demora o mesmo tempo a ir de a5 a h5 quer vá em linha recta quer vá aos ziguezagues... aqui, pelo menos, não há doping que o suspenda preventivamente por ziguezaguear, apesar de isso, à luz das regras de outros jogos, poder ser considerado aumento de rendimento!

Este lance Re8-f7 merece ser analisado.
Por um lado, cumpre os regulamentos - o Rei pode andar uma casa adjacente e, se tropeçou, pelo menos não caiu em e7 (peça largada, peça jogada!). Depois, permite ao Rei seguir para g8, onde um roque artifical tentará protegê-lo das investidas da Dama branca. Será este, porventura, o local próprio para debater a questão, pois, apesar de o Rei ter jogado em recurso - não houve voluntários para a interposição e não era possível tomar a Dama branca -, à míngua de alternativas, o Rei vai para junto do seu Bispo... se bem que não se saiba bem se o Bispo está em h7... ou em i8. Aqui da bancada de imprensa não se vê bem, devido ao poste de iluminação, sendo certo que já houve casos em que os Bispos negros participaram no jogo sem estarem no tabuleiro.
Por fim, mas não menos importante, a jogada Re8-f7 permite um ataque a descoberto ao Ca8 que, todavia, está bem defendido pela Dama branca e prepara-se para manobrar novamente, no sentido Ca8-c7-d5-e7, onde terá g8 em mira, estando prevista a chegada àquela casa para o dia 9 de Novembro. Certo que Cxe7 causa um certo incómodo - é mais um xeque, e como se dizia na sala onde aprendi a jogar "na dúvida dá-se xeque! Pode ser que seja mate!" - também resolve a questão do seleccionador, pelo que não se poderá dizer que o Cavalo nada fez.


Variante 9 de Novembro com o Bispo em i8.


Apesar de as peças críticas no tabuleiro serem, nesta posição, a Dama e o Cavalo branco e o Rei negro - além, claro, do Rei branco (sem rei não há jogo!) e dos seis peões negros (que estão suspensos até dia 12 de Novembro) - aquele lance Re8-f7 pretende também acabar com todo o jogo das brancas na ala de dama para centrar todas as atenções na de Rei, onde o cavalo do doping foi descoberto, sem querer, enquanto almoçava.


As negras pretendem resolver a polémica com Rf6-g5!!


Esta manobra surpreendente talvez não queira eclipsar a ala de Dama, mas não há dúvida que surpreende, até porque o Ch4 costuma estar amarrado à manjedoura na casa i5, onde, de acordo com muitos regulamentos, relincha se quiser que algum xadrezista lhe troque o feno ou a água. Se o Cavalo não relinchar, o jogador pode ir para casa sem correr o risco de ser preventivamente suspenso por tomar um diurético.

Mas não será necessário ir mais longe na análise, porque, além da posição não pedir a consideração de Rf6-g5 como tema candidato, agora que atento melhor na ala de Rei, bem vistas as coisas, a posição negra, concretamente a sua estrutura de peões, é ilegal: não é possível chegar àquela estrutura através de qualquer sequência de lances regulamentares. Há ali um peão, talvez o de h3 que deveria ser substituído por outro. Nem que fosse o de b2 que, de acordo com o cartão de atleta federado, é de uma xadrezista da AX Faro.

Prevê-se algum tempo de descanso neste match, pelo que voltaremos para acompanhar os Campeonatos do Mundo.

ps: Não é preciso dizer que qualquer semelhança com a coincidência é pura realidade.
ps2: Qualquer adepto pode dizer que todos os seleccionáveis são igualmente bons. O Presidente da FPX não pode dizer que a Selecção não saiu prejudicada porque se trata, aqui, de uma questão de justiça (aplicação do regulamento), não de valor desportivo.
ps3: Voltar atrás seria uma falta de respeito para os seleccionados? Que respeito receberam os jogadores que deveriam ter sido seleccionados mas não o foram? Voltar atrás não era oportuno por aquele motivo. Mas seria legal?

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Dia de descanso no Campeonato do Mundo


Hoje é dia de descanso, não há jogo entre Anand e Kramnik. Mas há adeptos e adeptos, e Didi Senft, também fã de cicloturismo, apresentou uma proposta inovadora:




Percebe-se por que é que Didi Senft é conhecido por El Diablo, e por que é que estas imagens, da Reuters, foram encontradas na secção "Planeta Bizarro" do portal de notícias da Globo.


Longe do selim e do Planeta Bizarro, o Campeonato do Mundo segue assim (notícia do Guardian):



Anand alcança vantagem de 3 pontos sobre Kramnik
Agência Noticiosa Assotiated Press
Terça, 21 de Outubro de 2008
Por ROBERT HUNTINGTON

Para The Associated Press, BONA, Alemanha (AP) - O indiano Viswanathan Anand venceu novamente o candidato Vladimir Kramnik esta terça-feira, pregando mais um prego no caixão das esperanças do candidato russo em reclamar o título de campeão do mundo.

A terceira vitória de Anand nos últimos quatro jogos deu ao campeão em título a liderança do match por 4.5-1.5. Uma onda de vitórias desta dimensão é praticamente inédita em matches pelo título mundial de xadrez, onde o habitual é as partidas terminarem empatadas.

A título de exemplo, quando, em 2000, Kramnik derrotou o então campeão do mundo Garry Kasparov, venceu duas partidas e empatou as restantes 13. Kramnik perdeu o título o ano passado, precisamente para Anand.

Com seis partidas por disputar, Kramnik, que nunca perdera 3 jogos em 4, tem poucas hipóteses de sair do buraco em que se encontra, até porque só jogará três com as brancas e Anand pode empatar os desafios que faltam.

O nono lance de Anand, numa Nimzo-India, foi uma novidade preparada que, posteriormente, o jogador classificou como "interessante porque força o adversário a sair da teoria e a começar a pensar desde muito cedo".

O antigo campeão do mundo Anatoly Karpov considerou que "a reacção de Kramnik não foi boa".

Já Kramnik declarou que "a abertura foi estranha mas a posição pareceu-me muito igualada". "Os meus lances pareceram muito lógicos".

Todavia, Anand gostou da posição que alcançou após a troca de Damas pois tinha pressão na coluna C contra o peão fraco de c7, e criticou o 17.º lance de Kramnik. Este concordou, acrescentado que, após esse lance, "não consegui ver como igualar".

Anand considerou a sua resposta - pregagem do cavalo de Kramnik à sua torre, "um pouco desagradável. Nessa altura senti que estava melhor."

A consequência lógica daquele lance 17 foi um sacrifício de peão que Karpov considerou "demasiado arriscado", mas Kramnik considerou-o necessário pois, caso contrário, "ficaria sem contra-jogo".

Apesar de ter um peão a menos, Kramnik tinha as suas peças mais activas e a torre de Anand estava um pouco descoordenada em g2. Mas foi apenas uma questão de tempo até Anand melhorar a sua posição.

"Ele conseguiu imenso contra-jogo [pelo peão sacrificado] mas não o recuperou", disse Anand. Kramnik considerou o seu lance 33 "o erro decisivo".

No final, Anand teve que jogar com precisão, mas tinha vários planos vitoriosos por onde optar. Kramnik desistiu no lance 47.

A conferência de imprensa após a partida atrasou-se mais de meia hora devido aos testes anti-doping obrigatórios. Questionado sobre estes, Anand considerou-os "completamente desnecessários" e apontou os computadores como a principal forma de fazer batota no xadrez. "Os testes anti-doping foram pensados para outros desportos", sustentou Anand.

Na quinta-feira, Anand jogará de brancas no jogo 7.



Aqui fica a partida, retirada de Chess Vibes, anotada pelo MI Merijn van Delft e por Peter Doggers, redactores daquele site: