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domingo, 27 de dezembro de 2015

Torres de Loulé | Introdução ao xadrez (curso básico em 10 aulas)

Introdução ao Xadrez

(curso básico em 10 aulas)





No ano lectivo 2014/2015, a Beatriz, a Carolina, o Fernando e o Simão, todos alunos da EB 2/3 Padre Cabanita, em Loulé, quiseram iniciar-se no mundo do xadrez depois de confrontados, em jeito de desafio, com alguns padrões elementares de xeque-mate.
  
Os nossos encontros semanais foram sistematizados em dez resumos (e alguns problemas) que foram sendo disponibilizados no blog Xadrez Vigoroso para facilitar a revisão dos assuntos que abordámos.

São esses artigos, escritos e ilustrados a pensar naqueles jovens aventureiros, que aqui se deixam indexados, disponíveis para quem esteja interessado em descobrir o jogo que, ao longo de séculos, tem sido jogado e apreciado por milhões de pessoas, sem distinção de género, cultura ou idade.


O xadrez é um misto de arte (um xadrezista depende da sua criatividade e imaginação), de ciência (pressupõe a aquisição de conhecimento e exige a sua aplicação através de um método paracientífico) e de desporto (tem uma dimensão competitiva, de superação do outro e das limitações do próprio xadrezista).

A principal aptidão que o xadrez potencia nos seus praticantes é a melhoria do processo de tomada de decisão: ambos os jogadores são colocados na mesma situação inicial e devem utilizar os recursos que lhes são disponibilizados para montar uma estratégia vencedora.



Analisar situações, avaliar opções, planear estratégias e resolver problemas são as tarefas recorrentes de um xadrezista... e de qualquer pessoa no seu quotidiano: o simples acto de atravessar a rua é uma tarefa que requer visualização, conhecimento espacial, antecipação, previsão, análise estratégica e avaliação - as mesmas ferramentas intelectuais sem as quais se pode mexer peças, mas não jogar xadrez, pois aqui, como na vida, mais do que saber em tese qual a solução de um problema, importa, num situação concreta, conseguir identificá-lo e perceber como pode ser resolvido.



O xadrez é um meio de excelência para treinar os mecanismos intelectuais de resolução de problemas, sendo um dos raros campos, a par da música e da matemática, em que uma reduzida experiência de vida não é um factor decisivo de limitação.

Com efeito, não há obras-primas feitas por crianças na pintura, na escultura ou na literatura; mas não foi preciso muito mais que a sensibilidade inata para a estética e para o raciocínio lógico para Mozart compor a sua primeira sinfonia com 8 anos; para Shakuntala Devi, aos seis anos, ser apresentada numa universidade como "calculadora humana"; ou para Capablanca aprender as regras do xadrez, com apenas 4 anos... vendo o seu pai jogar!

Também no âmbito do relacionamento social e do conhecimento individual, o xadrez surge como um dos poucos palcos em que crianças e adultos se encontram numa situação paritária, não sendo raras as situações em que as papéis normais se invertem, assumindo um dos elementos mais novos do grupo o papel de educador xadrezístico dos restantes membros, por se mostrar o mais capaz.



Quanto a introduções ao xadrez, esta não é a mais curta nem a mais elementar. Trata-se da primeira parte de um «curso básico» de xadrez idealizado para, mais que transmitir as regras, passar aos interessados conceitos, padrões e metodologias que permitam a descoberta do que o xadrez tem para oferecer: a estruturação do procedimento de tomada de decisão, com fundamento num planeamento estratégico, tendo em vista a resolução de um problema.



Esperamos que estes textos ajudem a aumentar a curiosidade sobre o xadrez e que sejam motivo de muitos momentos de diversão, como aconteceu connosco.

Quaisquer dúvidas ou comentários podem ser transmitidos através do envio de uma mensagem para o facebook das Torres de Loulé.
A resposta pode seguir pela mesma via ou, ainda melhor, se a distância não for entrave, num café ou na biblioteca de Loulé, com um tabuleiro de permeio. Afinal, divulgar o xadrez em Loulé e no Algarve é o objectivo destas Torres.



1 - O Tabuleiro | O Rei | A Dama | As Torres | A notação das jogadas



As primeiras apresentações:
- o Tabuleiro (casas, filas, colunas e diagonais);
- o Rei, a Dama e as Torres (movimentação e captura);
- a Notação Algébrica (registo escrito das jogadas).


Desafios relativos a estas matérias:





- Conceitos de xeque, xeque-mate e afogado.

- Técnica das Escadinhas: xeque-mate com duas peças pesadas (duas Torres, duas Damas ou uma Torre e uma Dama) contra Rei sozinho.

- Técnica da Caixa: xeque-mate com Dama e Rei contra Rei sozinho | xeque-mate com Torre e Rei contra Rei sozinho


Desafios relativos a estas matérias:




Últimas apresentações:
- os Cavalos e os Bispos (movimentação e captura);
- os peões (movimentação, capturas e promoção).

A posição inicial das peças.






Roque (condições e requisitos)

Formas de terminar a partida:
- Vitória/Derrota (xeque-mate | desistência | tempo)
- Empate (tempo | material insuficiente | afogado | repetição da posição | 50 jogadas sem capturas ou movimentos de peão | acordo)

Valor relativo das peças (trocas benéficas e prejudiciais: ataque/ameaça vs defesa -afastar/proteger/capturar/interpor | tipos de vantagens: material e posicional)

Introdução à estratégia: como concretizar uma situação de vantagem material? simplificação


Desafios relativos a estas matérias:






Fases da partida: abertura | meio jogo | final

Abertura:
- Objectivos: proteger o Rei | desenvolver as peças | controlar o centro
- Princípios: desenvolver as peças por ordem crescente de valor e em direcção ao centro do tabuleiro | fazer roque
- Erros: falta de protecção do Rei (diagonal fraca | peão fraquinho | não se fez roque) | saída prematura da Dama


Desafios relativos a estas matérias:






Causas da desvantagem material: Falta de atenção | Elementos tácticos

Falta de atenção:
- Deixar as peças desprotegidas (não damos conta que fomos atacados | jogamos a peça para uma casa que não controlamos | retiramos a peça defensora do posto de defesa | a peça defensora continua na mesma casa mas foi impedida de se movimentar)
- Permitimos que a nossa peça seja cercada






Causas da desvantagem material: Falta de atenção | Elementos tácticos

Elementos tácticos: táctica | combinação | peças activas | alvo (Rei, peças pouco protegidas, casa importante) || com uma só jogada criamos mais que um ataque

Pressupostos do ataque: PaLA - Peças activas em Linha para o Alvo

Elemento táctico - o Ataque Duplo: uma peça ataca directamente dois alvos.



Desafios relativos a estas matérias:







Pregagem - uma peça ataca outra do adversário ao longo de uma linha que tem dois alvos, de tal modo que se a peça atacada (alvo da frente) fugir, podemos capturar a de maior valor (alvo de trás) que se mantém na linha de ataque.

Espetada / Raio X - É a mesma situação geométrica que acontece na Pregagem, mas aqui a peça de maior valor é o alvo da frente, não o de trás.

Utilização da PaLA

Pregagem como tema estratégico: aumentar a pressão
Pregagem como tema táctico: peça pregada não defenda
Escapar da pregagem




9 - Mistério no Tabuleiro: o Ataque a Descoberto


Elemento táctico - o Ataque a Descoberto: a peça que movemos ataca directamente um alvo e permite, indirectamente (porque abre uma linha de ataque), o ataque de outro alvo com outra peça

Baterias | Moinho

Elemento táctico - Eliminar o Defesa: quando o alvo é uma peça pouco protegida, isto é, que se encontra defendida com o mesmo número de peças que o número de atacantes, se um dos defesas for eliminado, podemos ganhar o alvo.

Eliminar o defesa: com uma captura | com uma ameaça | com um desvio




E com esta táctica termina a primeira parte desta introdução ao xadrez.
Agora é tempo de treinar todos estes truques até ficarmos com estas armas nas pontas dos dedos.
E de pôr estes conhecimentos em prática jogando muitas partidas: em casa, online, em torneios.
O QUE É QUE JÁ SABEMOS?
Na Abertura: (ver resumo n.º 5)
1 - Queremos tirar o nosso exército do quartel, abandonando a posição inicial para conquistar espaço no tabuleiro e proteger o nosso Rei.
2 - Para alcançar este objectivo, temos 3 regras de ouro:
i) Controlar o centro;
ii) Desenvolver as peças por ordem crescente de valor e, em princípio, sem movimentar duas vezes a mesma peça antes de todas terem saído do quartel (o xadrez é um jogo de equipa, é muito difícil dar xeque-mate só com uma peça: os Cavalos devem ir para o centro do tabuleiro, não para as laterais; os Bispos e as Torres devem ocupar preferencialmente linhas abertas, isto é, sem peões, para o seu raio de influência e a sua mobilidade serem maiores);
iii) Proteger o Rei num canto do tabuleiro, através do roque (que ajuda a desenvolver a Torre e encosta o Rei a um canto, onde o adversário tem menos linhas de ataque e reforça a defesa do peão de f, de Fraquinho).
No Meio-Jogo:
3 - Sempre que o adversário jogar, devemos fazer duas perguntas:
i) O que é que a peça que ele jogou está a ameaçar na sua nova posição?
ii) O que é que a peça que ele jogou deixou de fazer por já não estar na posição anterior?
(Deste modo vamos ficar concentrados e evitaremos que o adversário nos faça negócios ruinosos - ver resumo n.º 6)
4 - Vamos tentar obter vantagem material, através da realização de negócios ruinosos para o adversário, utilizando as tácticas da PaLA da boina do Sherlock Holmes.
Queremos: 
i) Peças activas, isto é, a desempenhar uma função útil, seja a atacar o adversário, seja a impedir a sua progressão, seja a ajudar outras peças do nosso exército;
ii) ocupar Linhas de progressão, ou seja, as nossas peças devem ter mobilidade para atacar alvos;
iii) identificar os alvos na posição adversária que podem ser:
          a) O Rei ou outra peça valiosa (Dama ou Torre);
          b) Peças desprotegidas ou pouco protegidas, isto é, defendidas com o mesmo número que o número de atacantes;
          c) Casas VIP, ou seja, casas onde podemos fazer coisas importantes, como dar xeque-mate, activar as nossas peças ou impedir a progressão do adversário.
(PaLA - Peças activas em Linha contra o Alvo: ver resumo n.º 7, primeira parte)
5 - O nosso radar de alvos tem que estar sempre ligado. Se encontrarmos:
i) Dois ou mais alvos, procuramos Ataques Duplos (resumo n.º 7, segunda parte);
ii) Se os alvos estiverem na mesma linha, procuramos Pregagens ou Espetadas Radioactivas e quando tivermos uma pregagem feita, o que queremos? Aumentar a pressão! E o que é que a peça pregada não faz? Peça pregada não defende! (ver resumo n.º 8);
iii) Se houver alvos e tivermos uma bateria, tentamos fazer um Ataque a Descoberto (ver resumo n.º 9);
iv) Se o alvo for uma peça pouco protegida, tentamos Eliminar o Defesa com uma captura, uma ameaça ou um desvio (ver resumo n.º 10)
6 - Depois de um negócio ruinoso (ver resumo n.º 4, parte final):
i) Se tivermos vantagem material, queremos trocar peças e não peões. Trocamos peças para diminuir a possibilidade de defesa do adversário e ficamos com os peões para promover um a Dama;
ii) Se estivermos a perder material, queremos trocar os peões e não as peças (trocamos os peões para o adversário ter mais dificuldade em promover um e ficamos com as peças para termos mais poder defensivo)
7 - O Rei deve ser protegido; os Cavalos devem controlar o centro; os Bispos gostam de diagonais abertas; as Torres também gostam de colunas abertas, sendo que dobradas triplicam de força e o objectivo é coloca-las no território adversário na sétima ou na oitava fila.
No Final:
8 - Devemos ter peças activas e explorar os peões fraquinhos (isolados, dobrados ou atrasados).
9 - O objectivo é promover um peão a Dama e devemos concretizar este plano com a ajudar do nosso Rei: como já há poucas peças no tabuleiro, não há grande risco de levar mate, pelo que o Rei deve ser uma peça activa. 
10 - Quando tivermos Rei e Dama contra Rei, devemos fazer a técnica da caixa; se tivermos duas peças pesadas (Dama/Torre) contra o Rei, a técnica mais eficaz é a das escadinhas. Cuidado para não afogar! (ver resumo n.º 2)
Vão ver que à medida que forem interiorizando estes ensinamentos os bons resultados vão aparecer: o objectivo do xadrez é dar xeque-mate ao adversário, mas ganhar, mais do que um objectivo, é o resultado do vosso empenhamento.
Se mantiverem o esforço, é garantido que vão ganhar mais vezes que aquelas que perdem.

Pelo caminho, dedicação: qualquer Grande Mestre já foi um iniciante e antes de começar a ganhar partidas e depois campeonatos, teve que perder muitas vezes e aprender com os seus erros.

Na verdade, qualquer Mestre já perdeu mais partidas do que todas aquelas que vocês já jogaram na vida!
Agora, mãos à obra que o xadrez é um caminho que se faz caminhando.
Trabalho, Dedicação e Boa sorte!

Quaisquer dúvidas ou comentários podem ser transmitidos através do envio de uma mensagem para o facebook das Torres de Loulé.
A resposta pode seguir pela mesma via ou, ainda melhor, se a distância não for entrave, num café ou na biblioteca de Loulé, com um tabuleiro de permeio. Afinal, divulgar o xadrez em Loulé e no Algarve é o objectivo destas Torres.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

10 - Mistério no Tabuleiro: Eliminar o Defesa.

0.A

Vamos terminar a nossa introdução ao xadrez deslindando mais uma forma misteriosa de impor negócios ruinosos aos nossos adversários.
Como sempre, vamos seguir a táctica do grande detective Sherlock Holmes que ele guarda na PaLA da sua boina.


 
PaLA (Peças activas em Linha para o Alvo)

A solução do mistério passa sempre por três elementos:

1 - Peças activas
2 - Linhas de progressão
3 - Alvo para ameaça


E quanto aos alvos, temos três tipos: o Rei, o Material pouco protegido e as Casas VIP.

0.B

Finalmente, para usarmos a PaLA (Peças activas em Linha para o Alvo) do Sherlock Holmes para fazer desaparecer as peças do adversário, temos que seguir três passos:


PRIMEIRO PASSO: Identificar os Alvos

Começamos numa ponta do tabuleiro e, como um radar, identificamos:

1 - o Rei;
2 - Material desprotegido ou defendido pelo mesmo número de peças que o número de atacantes;
3 - Casas VIP.


SEGUNDO PASSO: Verificar se há Linhas de ataque

Para cada Alvo identificado, vamos determinar as linhas pelas quais ele pode ser atacado.


TERCEIRO PASSO: Activar a Peça

Quando encontrarmos um bom cruzamento de linhas de ataque, activamos aí o nosso ataque.


Da última vez falámos sobre o Ataque a Descoberto.

Hoje vamos «Eliminar o Defesa»!
 

Quando identificamos um alvo do adversário que está defendido pelo mesmo número de peças que o número de atacantes, se conseguirmos eliminar um dos defesas, o alvo - que estava pouco protegido - fica desprotegido.


Nos jogos que começam com o avanço dos peões da coluna E (1. e4 e5), é habitual as brancas aproveitarem a vantagem de serem as primeiras a jogar para controlar duas casas no centro e atacar o peão de e5 com 2. Cf3 e as negras lutarem pelo controlo das mesmas duas casas (e5 e d4) e defenderem o peão com 2. ... Cc6.


Na Abertura Espanhola, uma das mais famosas, as brancas continuam o seu desenvolvimento e preparam o roque com a jogada 3. Bb5.

Depois deste lance as brancas ameaçam jogar 4. Bxc6, eliminando o Cavalo que estava a defender o peão de e5.

 
No entanto, se as negras responderem correctamente, nada têm a temer.
Efectivamente, as negras conseguem recuperar o material perdido com um ataque duplo.
Consegues descobrir como é que as negras devem continuar para recuperar o peão que vão perder por o defesa de e5 ter sido eliminado?

Vamos lá calcular:
Quando o Cavalo branco capturar o peão de e5, as brancas vão ter dois alvos (peças desprotegidas) nas casas e5 e e4.
Se procurarmos as linhas de ataque para estas casas, verificamos que há uma casa comum: d4.
A partir de d4, as linhas de ataque são na diagonal (para e5) e na linha (para e4).
Qual é a peça que se pode movimentar nas diagonais e nas linhas?
A Dama!
Como é que a Dama consegue ir para d4?
Se o peão de d7 desimpedir o caminho...


Então a melhor continuação para as negras é capturar o Bispo com 4. ... dxc6 e depois de 5. Cxe5 jogar Dd4! E quando o Cavalo fugir, tomar o peão de e4 com xeque.

Mas vamos ver três tipos de exemplos em que «eliminar o defesa» é mais produtivo.
Nuns casos a eliminação vai ocorrer por força de uma captura.
Noutros, por causa de uma ameaça.
E nos últimos, eliminaremos o defesa provocando-lhe um desvio das suas tarefas defensivas.

A: ELIMINAR O DEFESA COM UMA CAPTURA


Jogam as brancas.
Qual é o alvo nesta posição?
 

O Bispo negro é um alvo - peça pouco protegida.
Está atacado por uma peça (Td1) e protegido pelo mesmo número de defesas (Cc6).
 
Uma das formas de punir uma peça pouco protegida é eliminar o defesa.
Podemos eliminar o Cc6?
 
 
Sim, podemos eliminar o defesa através de uma captura:
jogamos Bxc6 e ganhamos 3 pontos!
 
As negras podem recuperar esses 3 pontos com 1. ... Txc6 (seta verde), mas como eliminámos o defesa do Bispo, as brancas podem voltar a ter vantagem de 3 pontos com 2. Txd4.
 
E ainda ficam a ameaçar dar o xeque-mate do fundinho porque o Rei não tem casas de fuga na linha 7! (setas vermelhas)

 
 
 
 
Esta táctica é tão eficaz que às vezes até podemos começar com um negócio que parece ruinoso para nós, mas que no final nos vai trazer muita compensação.
 
Parece complicado?

Vamos lá ver um exemplo em que o adversário fica a pensar que somos um gatinho quando na verdade jogamos como o rei da selva!

 
Jogam as brancas.
Há algum alvo nesta posição?
 
 
O Rei é sempre um alvo e aqui está exposto.
No entanto não há linhas de ataque contra ele.
 
O Bispo é um alvo - peça desprotegida.
Mas não há nenhum Ataque Duplo disponível.
 
A Dama é um alvo - peça pouco protegida:
está atacada por um (Df2) e defendida por um (Ce7).
 
Já sabemos que uma das formas de punir uma peça pouco protegida é eliminar o defesa.
Só que aqui, eliminar o defesa não parece uma ideia: vamos dar os 5 pontos da Torre para ganhar os 3 do Cavalo, e acabamos a perder 2...
 
Se voluntariamente quisermos um negócio ruinoso para nós, jogamos como um gatinho que não percebe grande coisa de xadrez, só de novelos de lã...
 
Mas será mesmo assim?
Sempre que nos parecer que uma variante não é boa, devemos esforçar-nos para ver um pouco mais longe.
 
 
  
1. Txe7 (+3 pontos) Rxe7 (-5 pontos)
 
Estamos a perder 2 pontos... somos um gatinho?
 
 
 
Não!
 
Com o sacrifício da qualidade eliminamos o defesa da Dama que passou de alvo-peça-pouco-protegida para alvo-peça-desprotegia.
 
Estamos a perder 2 pontos, mas depois de 2. Dxf5, ganhamos 9 pontos e o resultado final é um negócio altamente ruinoso de -7 pontos... para o nosso adversário!
 
Ah, leão!



B: ELIMINAR O DEFESA COM UMA AMEAÇA
 
Mas para eliminar o defesa não é obrigatório capturá-lo.

Às vezes basta uma boa ameaça:

 
Jogam as brancas.
Há algum alvo nesta posição?
 
 
O Bispo negro é um alvo - peça pouco protegida:
está atacado pela Td1 e defendido pela Td8.
 
Uma das formas de punir uma peça pouco protegida é eliminar o defesa.
Podemos eliminar a Td8?
 
 
Nesta posição não podemos capturar o defesa.
 
Mas se jogarmos 1. Ba5! ameaçamos capturar a Torre na jogada seguinte e ganhar 5 pontos à borla!
 
As negras têm que fugir com a Torre para uma casa na fila 8 e as brancas ganham os 3 pontos do Bispo negro depois de 2. Txd7.
 
(depois de 1. Ba5 não serve Ta8, porque depois de 2. Txd7 se Txa5, 3. Td8# dá o mate do fundinho)



E se a ameaça for ao Rei, o caso ainda é mais sério, pois é obrigatório proteger o Rei.


 
As negras estão a ganhar por um ponto e por isso querem trocar peças e não peões.
 
Decidiram propor a troca de Damas com 1. ... Dc8 o que foi um grande erro.
 Em c8, a Dama é um alvo - peça pouco protegida.
Está atacada pela Dc4 e defendida pelo Rb8.
 
Uma das formas de punir uma peça pouco protegida é eliminar o defesa.
Podemos eliminar o Rb8?
 
Já sabemos que é ilegal capturar o Rei. Mas o xeque vem no livro das regras...
 
 
2. Ba7+ e o Rei é obrigado a afastar-se da defesa da Dama.
 
As negras tinham a vantagem de um ponto e depois de 2. ... Rxa7 ficam com 4 pontos de vantagem.
No entanto, as brancas respondem com 3. Dxc8, ganham 9 pontos e ficam com 5 de vantagem.
 
 
 
C: ELIMINAR O DEFESA COM UM DESVIO

Além da captura e da ameaça, um defesa também pode ser eliminado com um desvio.

Esta situação acontece quando uma peça sobrecarregada com tarefas defensivas.
Como não é possível estar em dois sítios ao mesmo tempo, vamos aproveitar este facto para o aplicar na táctica de eliminar o defesa.

Vamos ver!

 
Jogam as brancas.
Há algum alvo nesta posição?
 
 
O peão de h6 é um alvo - peça desprotegida.
O Cavalo é um alvo - peça pouco protegida (atacada pelo Be1 e defendida pelo peão b6).
O Bispo é um alvo - peça pouco protegida (atacada pela Tc2 e defendida pelo peão b6).
 
O peão de b6 apareceu duas vezes como defensor dos alvos.
Isto significa que ele está sobrecarregado.
Tem várias missões defensivas e não vai conseguir estar em todo o lado ao mesmo tempo...
 
 
As brancas podem aproveitar o facto de o peão estar sobrecarregado para eliminar a defesa de um dos alvos:
1. Bxa5 (3 pontos) bxa5 (tudo igual... mas agora o Bc5 passou de alvo-peça-pouco-protegida para alvo-peça-desprotegida e
 
2. Txc5 dá uma vantagem de 3 pontos às brancas!

*

E com esta táctica terminamos a nossa introdução ao xadrez.
Agora é tempo de treinar todos estes truques até ficarmos com estas armas nas pontas dos dedos.
E de pôr estes conhecimentos em prática jogando muitas partidas: em casa, online, em torneios.
 
O QUE É QUE JÁ SABEMOS?
 
 
Na Abertura: (ver resumo n.º 5)
 
1 - Queremos tirar o nosso exército do quartel, abandonando a posição inicial para conquistar espaço no tabuleiro e proteger o nosso Rei.
 
2 - Para alcançar este objectivo, temos 3 regras de ouro:
i) Controlar o centro;
ii) Desenvolver as peças por ordem crescente de valor e, em princípio, sem movimentar duas vezes a mesma peça antes de todas terem saído do quartel (o xadrez é um jogo de equipa, é muito difícil dar xeque-mate só com uma peça: os Cavalos devem ir para o centro do tabuleiro, não para as laterais; os Bispos e as Torres devem ocupar preferencialmente linhas abertas, isto é, sem peões, para o seu raio de influência e a sua mobilidade serem maiores);
iii) Proteger o Rei num canto do tabuleiro, através do roque (que ajuda a desenvolver a Torre e encosta o Rei a um canto, onde o adversário tem menos linhas de ataque e reforça a defesa do peão de f, de Fraquinho).
 
 
No Meio-Jogo:
 
3 - Sempre que o adversário jogar, devemos fazer duas perguntas:
i) O que é que a peça que ele jogou está a ameaçar na sua nova posição?
ii) O que é que a peça que ele jogou deixou de fazer por já não estar na posição anterior?
 
(Deste modo vamos ficar concentrados e evitaremos que o adversário nos faça negócios ruinosos - ver resumo n.º 6)
 
4 - Vamos tentar obter vantagem material, através da realização de negócios ruinosos para o adversário, utilizando as tácticas da PaLA da boina do Sherlock Holmes.
 
Queremos: 
i) Peças activas, isto é, a desempenhar uma função útil, seja a atacar o adversário, seja a impedir a sua progressão, seja a ajudar outras peças do nosso exército;
ii) ocupar Linhas de progressão, ou seja, as nossas peças devem ter mobilidade para atacar alvos;
iii) identificar os alvos na posição adversária que podem ser:
          a) O Rei ou outra peça valiosa (Dama ou Torre);
          b) Peças desprotegidas ou pouco protegidas, isto é, defendidas com o mesmo número dos atacantes;
          c) Casas VIP, ou seja, casas onde podemos fazer coisas importantes, como dar xeque-mate, activar as nossas peças ou impedir a progressão do adversário.
 
(PaLA - Peças activas em Linha contra o Alvo: ver resumo n.º 7, primeira parte)
 
 
5 - O nosso radar de alvos tem que estar sempre ligado. Se encontrarmos:
i) Dois ou mais alvos, procuramos Ataques Duplos (resumo n.º 7, segunda parte);
ii) Se os alvos estiverem na mesma linha, procuramos Pregagens ou Espetadas Radioactivas e quando tivermos uma pregagem feita, o que queremos? Aumentar a pressão! E o que é que a peça pregada não faz? Peça pregada não defende! (ver resumo n.º 8);
iii) Se houver alvos e tivermos uma bateria, tentamos fazer uma Ataque a Descoberto (ver resumo n.º 9);
iv) Se o alvo for uma peça pouco protegida, tentamos Eliminar o Defesa com uma captura, uma ameaça ou um desvio (ver resumo n.º 10)
 
 
6 - Depois de um negócio ruinoso (ver resumo n.º 4, parte final):
i) Se tivermos vantagem material, queremos trocar peças e não peões. Trocamos peças para diminuir a possibilidade de defesa do adversário e ficamos com os peões para promover um a Dama;
ii) Se estivermos a perder material, queremos trocar os peões e não as peças (trocamos os peões para o adversário ter mais dificuldade em promover um e ficamos com as peças para termos mais poder defensivo)
 
 
7 - O Rei deve ser protegido; os Cavalos devem controlar o centro; os Bispos gostam de diagonais abertas; as Torres também gostam de colunas abertas, sendo que dobradas triplicam de força e o objectivo é coloca-las no território adversário na sétima ou na oitava fila.
 
 
No Final:
 
 
8 - Devemos ter peças activas e explorar os peões fraquinhos (isolados, dobrados ou atrasados).
 
9 - O objectivo é promover um peão a Dama e devemos concretizar este plano com a ajudar do nosso Rei: como já há poucas peças no tabuleiro, não há grande risco de levar mate, pelo que o Rei deve ser uma peça activa. 
 
10 - Quando tivermos Rei e Dama contra Rei, devemos fazer a técnica da caixa; se tivermos duas peças pesadas (Dama/Torre) contra o Rei, a técnica mais eficaz é a das escadinhas. Cuidado para não afogar! (ver resumo n.º 2)
 
 

Vão ver que à medida que forem interiorizando estes ensinamentos os bons resultados vão aparecer: o objectivo do xadrez é dar xeque-mate ao adversário, mas ganhar, mais do que um objectivo, é o resultado do vosso empenhamento.
 
Se se dedicarem é garantido que vão ganhar mais vezes que aquelas que perdem.

Pelo caminho, dedicação: qualquer Grande Mestre já foi um iniciante e antes de começar a ganhar partidas e depois campeonatos, teve que perder muitas vezes e aprender com elas.

Na verdade, qualquer Mestre já perdeu mais partidas do que todas aquelas que vocês já jogaram na vida!
 
Agora, mãos à obra que o xadrez é um caminho que se faz caminhando.
Trabalho, Dedicação e Boa sorte!

sábado, 18 de abril de 2015

9 - Mistério no Tabuleiro: o Ataque a Descoberto

0.A

Vamos continuar com os ensinamentos que o Sherlock Holmes guarda na PaLA da sua boina para percebermos os mistérios das peças desaparecidas e compreendermos as tácticas do xadrez.




PaLA (Peças activas em Linha para o Alvo)

A solução do mistério passa sempre por três elementos:

1 - Peças activas
2 - Linhas de progressão
3 - Alvo para ameaça


E quanto aos alvos, temos três tipos: o Rei, o Material pouco protegido e as Casas VIP.

0.B

Finalmente, para usarmos a PaLA (Peças activas em Linha para o Alvo) do Sherlock Holmes para fazer desaparecer as peças do adversário, temos que seguir três passos:


PRIMEIRO PASSO: Identificar os Alvos

Começamos numa ponta do tabuleiro e, como um radar, identificamos:

1 - o Rei;
2 - Material desprotegido ou defendido pelo mesmo número de peças que o número de atacantes;
3 - Casas VIP.


SEGUNDO PASSO: Verificar se há Linhas de ataque

Para cada Alvo identificado, vamos determinar as linhas pelas quais ele pode ser atacado.


TERCEIRO PASSO: Activar a Peça

Quando encontrarmos um bom cruzamento de linhas de ataque, activamos aí o nosso ataque.


Da última vez falámos sobre Pregagens e Espetadas Radioactivas.

Hoje vamos tratar do Ataque a Descoberto.


O Ataque a Descoberto acontece quando movemos uma peça (a da frente) que, deixando de bloquear outra (a de trás), permite que esta passe a atacar um alvo.

Com esta táctica, conseguimos, numa só jogada, atacar dois alvos do adversário, um com a peça da frente e outra a peça de trás.
 
É um tipo especial de Ataque Duplo, de que já falámos, lembram-se?
 
No Ataque Duplo, uma peça ameaça ao mesmo tempo dois ou mais alvos do adversário, de tal modo que mesmo que ele defenda um, fica sempre sem outro.
 
A jogada Dc2 é um ataque duplo (ao Cc6 e à casa VIP h7 onde as brancas podem dar mate)
 
 
A diferença entre o Ataque Duplo e o Ataque a Descoberto é o tipo de ataque que fazemos:
 
- no Ataque Duplo a peça que movemos ataca directamente dois alvos do adversário;
  
- no Ataque a Descoberto a peça que movemos ataca directamente um alvo e permite, indirectamente (porque abre uma Linha de Ataque), o ataque de outro alvo com outra peça.
 
 
Já aí vem um exemplo para isto já vai fazer sentido.
 
Antes vamos só falar numa arma muito especial que temos ao nosso dispor e que é essencial para fazer um Ataque a Descoberto: a Bateria!


Temos uma Bateria quando colocamos várias peças nossas na mesma linha (coluna, fila ou diagonal).

As Baterias, principalmente quando temos a Dama como ponta de lança (na posição da peça da frente), também são muito úteis para dar xeque-mate.

No último diagrama, relativo à posição do Ataque Duplo, montámos uma bateria:

 
A jogada Dc2 cria uma bateria de Bispo e Dama na diagonal b1-h7.
 
 
 
Vamos lá ver então uma bateria a funcionar com um Ataque a Descoberto:
 
 
Nesta posição, as Brancas têm uma bateria de Torre e Bispo montada na coluna E.
As negras têm dois alvos: o Rc7 e a De8.
 
Depois de identificar a bateira e os alvos do adversário, o passo seguinte é verificar se há Linhas de Ataque:
A peça da frente da bateria é um bispo que só anda nas casas negras.
O Rei negro está numa casa negra.
 
Se o Bispo se mover deixa de bloquear a coluna E à Torre, esta passa a atacar a De8.
 
 
A jogada Bb6+ é um Ataque a Descoberto:
A peça da frente da bateria foi atacar o Rei negro;
A peça de trás passou a atacar a Dama.
 
Depois de as negras defenderem o xeque, as brancas vão capturar a Dama e utilizar a técnica da caixa para dar xeque-mate uma vez que estão a jogar com Rei e Torre contra Rei.
 
 
 
Para ficarmos a dominar a bateria e a arte do Ataque a Descoberto, vamos só ver mais três exemplos, com baterias e alvos diferentes.
 
 
Exemplo 1: como na posição anterior, temos como alvo o Rei e Material:
 

Começamos por identificar a bateria:

 
Temos uma bateria de Dama e peão na fila 2.
 
 
 
Depois os alvos:
 
 
As negras têm o Rei em f5 e uma Dama desprotegida em h2.


 
A questão final é determinar se a peça da frente da bateria pode atacar um alvo libertando a peça de trás para atacar outro... Será possível?
 
 
É! com 1. e4+, as negras são obrigadas a defender o xeque.
Quando protegerem o Rei, as brancas capturarão a Dama com 2. Dxh2.
 
Depois é só usar a técnica da caixa para dar xeque-mate!
 
 
Exemplo 2: Ataque Duplo a dois alvos materiais
 
 
Temos uma bateria montada?
Há alvos na direcção da bateria?
É possível ocupar linhas de ataque?
 
 
 
Temos uma bateria de Bispo e Dama na diagonal d1-a4 e outra de Cavalo e Bispo na diagonal a2-g8.
Na direcção desta segunda bateria há um alvo: a Dg8, peça valiosa.
A posição negra tem outro alvo valioso: a Te8.
 
Será que a peça da frente pode atacar um dos alvos e deixar a peça de trás atacar outro?

 
 
A jogada 1. Cc7 é um Ataque a Descoberto:
ao mesmo tempo que o Cavalo ataca a Torre,
desimpede a linha de ataque do Bispo que ficou a ameaçar a Dama.
 
Quando as negras fugirem com a peça mais valiosa (1. ... Df8) ou defenderem o ataque (1. ... Be6), as brancas podem capturar a Torre (2. Cxe8), isto é, +5 pontos, pelo que quando o Cavalo for capturado com 2. ... Dxe8 (-3 pontos), ficam com um saldo positivo de dois pontos (5-3=2).


Terceiro e último Exemplo: Ataque Duplo a casa VIP e a material

 
As brancas têm uma bateria de Torre e Bispo na diagonal c1-h6.
 
As negras têm peças desprotegidas em a8 e g5.
O seu rei está na fila 8 sem casas de fuga disponíveis na fila 7, o que é o tema do mate do fundinho, pelo que havendo possibilidade de mate na fila 8, as casas b8, c8, d8 e e8 também são alvos (casas VIP).

 
Com a jogada 1. Tb4, as brancas fazem um ataque a descoberto:
- A peça da frente passou a atacar a casa b8, ameaçando dar xeque-mate;
- A peça de trás ficou com o caminho livre para atacar a Tg5.
 
Depois de 1. ... h6 (para dar ao Rei a casa de fuga h7 que ficou desocupada) 2. Bxg5 (+ 5 pontos) hxg5 (- 3 pontos, as brancas ficam a ganhar +2) 3. Tb8+ Rh7 4. Txa8 (+ 3 pontos), as brancas ficam com vantagem material de 5 pontos.


Para terminar, deixo-vos o exemplo que mostra todo o poder que uma bateria pode ter.
Este padrão chama-se "Moinho" porque os xeques e as capturas que jogamos fazem lembrar o movimento rotativo das pás de um moinho.

O D. Quixote bem sabia que os moinhos podiam ser perigosos... 
 
 
 Vamos lá olhar para a posição e tentar perceber o que está a acontecer:
 
 
As brancas têm uma bateria de Torre e Bispo na diagonal h1-a8.
As peças negras estão todas alinhadas e o Rei não tem muitas casas disponíveis:
 
 
O Rei negro não pode ir para a sétima fila porque a Torre não deixa, nem pode passar da coluna B porque o Cavalo controla c8.
 
Isto significa que ao som da música dos xeques, o Rei só pode dançar nas casas a8 e b8...
 
O resultado é destrutivo!
 

Com as pás a girar à força do xeque, as negras estão perdidas: xeque a descoberto do Bispo e, Pás!, a Torre come mais uma pecinha... xeque de Torre e vira o disco e toca o mesmo... xeque a descoberto do Bispo e, Pás!, a Torre come mais uma pecinha...

Se quiserem ver a táctica do Moinho a ser utilizada na prática, cliquem aqui.