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terça-feira, 6 de janeiro de 2009

O que faz falta... - Parte 2


Continuando este post de Setembro e a alegoria de Outubro, já se sabia em Novembro (Adenda ao post sobre a Fórmula do Sucesso) o que se leu em Dezembro.



Arthur Bloch, A Lei de Murphy - volume III, Editorial Presença.

"Como já é do seu conhecimento «se algo pode correr mal, correrá mal». Pois bem, se julgava que a lei de Murphy era coisa do passado, desengane-se, pois surgiram Outras Más Razões para as Coisas Correrem Mal. O terceiro volume da lei de Murphy é um auxílio precioso para quem não quer ter preocupações desnecessárias; afinal «o verdadeiro problema não tem solução». Portanto seja optimista, e lembre-se de que «errar é humano – mas atribuir a culpa a outra pessoa qualquer é mais humano ainda»."



Depois deste post MoNsTrUoSo de Janeiro do ElToreroBombero na Casa do Xadrez - "É a bomba: cartas polémicas que envolvem as Olimpíadas de Dresden", só os ensinamentos de Murphy poderão conseguir recolocar os pés do xadrez português no chão.
(Este título do último post do Ala de Rei é menos sensacionalista mas igualmente assertivo: "Há casos em que a vergonha não tem limites. A Vice-Presidente da Federação Portuguesa de Xadrez, Maria Armanda Plácido é um exemplo disso.")


Sobre a convocatória das selecções absoluta e feminina para Dresden:
Quarta Lei de Frothingam - A urgência é inversamente proporcional à importância.
Lei de Murphy - Se algo pode correr mal, correrá mal.
Comentário de O'Toole - Murphy era um optimista.
Corolário de Kohn à Lei de Murphy - Dois erros são apenas o início.
Princípio de Parouzzi - Se o começo for mau, os problemas aumentarão em progressão geométrica.


Sobre a jogadora-capitã-chefe de delegação:
Lei de Murphy na Administração Pública - Se algo correr mal, correrá mal em triplicado.
11.º Mandamento - Não participarás em comissões.
Lei de Perrusel - Não há trabalho tão simples que não possa ser mal feito.
Princípio de Rockefeller - Nunca faças nada que não devas ser apanhado a fazer.


Pensa a Direcção da FPX:
Lei de Tussman - Nada é tão inevitável como um erro que viu chegada a sua hora.
Lei de Maahs - As coisas correm bem para poderem correr mal.
Lei da Dualidade de Dude - Consideradas duas hipóteses, acontecerá a mais indesejável.
Observação de Mae West - O erro é humano, mas provoca sensações divinas.
Lei de Allen - É sempre mais fácil entrar em do que sair de.
Primeira Lei da Política - Ficar, apoiando os que saem.


Sobre a resposta à carta que, apesar de algumas imprecisões, tem tudo e não acrescenta nada ao que foi escrito no relatório de 17 páginas, ilustrado com fotografias e cerca de 500 páginas de anexos (versão resumida), e respostas seguintes:
Regra do Fracasso de Fahnestock - Se não for bem sucessido à primeira vez, destrua todas as provas da sua tentativa.
Lei de Zymurgy sobre a Dinâmica dos Sistemas Evolutivos - Uma vez aberta uma lata de minhocas, para as guardarmos de novo teremos de usar uma lata maior.
O Império da Lei - Se os factos estiverem contra si, ponha a lei em causa. Se a lei estiver contra si, ponha os factos em causa. Se os factos e a lei estiverem contra si, grite como um louco.
Comentário de Kaiser à Lei de Zymurgy - A menos que queira ir à pesca, não abra uma lata de minhocas.
Lei dos Grandes Problemas de Hoare - Dentro de cada grande problema há um pequeno problema que luta para se libertar.
Conversão da Lei dos Grandes Problemas de Hoare, por Schainker - Dentro de cada pequeno problema há um problema maior que luta para se afirmar.


Conclusão:
Lei de Baxter - O erro da premissa aparecerá na conclusão.
Lei de Hane - Tudo pode correr mal, até limites desconhecidos.


Próximos capítulos:
Lei da Retórica de Hartz - Se durar o suficiente, qualquer discussão acaba na semântica.
Terceira Lei do Debate de Fahnstock - Qualquer assunto digno de ser debatido também é digno de ser esquecido.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

A fazer lembrar a APMX... [aditada adenda]


Olímpicos contra Vicente Moura: "Não se tem portado à altura"


Os atletas estão contra a continuidade de Vicente Moura à frente do Comité Olímpico de Portugal (COP) e, nesse sentido, não vão apoiar a sua recandidatura. A posição foi manifestada esta quarta-feira, no Estádio Nacional, numa conferência de imprensa que reuniu alguns dos melhores classificados nos Jogos de Pequim e o próprio medalha de ouro no Triplo Salto.

«O presidente do COP não se tem portado à altura dos atletas. Fomos abandonados quando mais precisávamos de apoio. Gostaríamos que o movimento associativo ouvisse os atletas e encontrasse alternativas. Gostávamos de uma mudança», defendeu Nuno Fernandes, presidente da Comissão de Atletas Olímpicos, ladeado por Nelson Évora, Gustavo Lima (Vela), Simão Morgado (Natação), Joaquim Videira (Esgrima), Nuno Pombo (Tiro com Arco) e Paulo Bernardo (Disco).


Dirigentes da Comissão de Atletas Olímpicos recebidos em S. Bento no início do ano.


Perante jornalistas e atletas - na assistência estavam, também, Marco Fortes (Martelo), a dupla Álvaro Marinho/Miguel Nunes (Vela), Arnaldo Abrantes (Atletismo) e Tiago Venâncio (Natação), entre outros -, Nuno Fernandes lamentou o facto de a Federação Portuguesa de Atletismo ser a «única» a ter «a coragem pública de denunciar algumas situações e de pedir uma reflexão» sobre o momento. «Isso entristece-nos», acrescentou.

Uma das consequências da recondução de Vicente Moura no cargo será a demissão de Nuno Fernandes. «Ao contrário do que aconteceu com o comandante, será a minha saída da Comissão de Atletas Olímpicos. Se sou o líder e tomo uma posição contra não tem cabimento continuar [caso Vicente Moura seja reeleito]», defendeu o antigo atleta do F.C. Porto (Salto com Vara).

«Seria bom que o movimento associativo encontrasse alternativas e não optasse pelo caminho mais fácil», perspectivou.


Noutra notícia do mesmo jornal,
«Se os atletas estão contra, por que é que as federações apoiam a recandidatura?», questiona Gustavo Lima



Gustavo Lima, quarto classificado nos Jogos de Pequim, admitiu que o relacionamento com a «actual» Direcção da Federação Portuguesa de Vela não é dos «melhores», contudo, não compreende como é possível os atletas e as associações que os representam estarem em desacordo e deixou uma pergunta.

«Se estamos contra o presidente do COP, por que é que as federações apoiam a sua recandidatura?», questionou.




Intervenções e questões que fazem lembrar a posição da Associação Portuguesa de Mestres de Xadrez sobre as convocatórias para as Olimpíadas de Dresden.

A resposta é que parece simples: porque, como naquela brincadeira de crianças em que a frase segredada no início da fila chega completamente desvirtuada ao final, os interesses dos atletas vão sendo alterados à medida que se sobem os degraus - clube, associação, federação... - da pirâmide da administração desportiva.

Adenda

Olímpicas xadrezistas em discurso directo retirado do Xadrezismo:

(...) Ariana abordou o aspecto mais melindroso desta participação Olimpica: ”Por um lado, foi bom podermos jogar as 4 em simultâneo (o que não aconteceu nas outras olimpíadas), porque mantivemos a nossa homogeneidade enquanto equipa, o que outros países não conseguiram. Nós saímos de Portugal já sabendo que íamos jogar os 11 jogos, e tinhamos acordado neste aspecto com a Armanda Plácido, nossa capitã de equipa e 5ª jogadora. Apesar do meu problema de saúde, eu fiz os possíveis para continuar em prova porque sabia que era o melhor para a equipa, e que a nossa capitã não teria disponibilidade para jogar nos últimos dias. Não se pôs a questão de eu descansar alguma sessão simplesmente porque sabíamos que era o melhor para a equipa continuarmos a jogar as 4, e eu já sabia quando saí de Portugal que iria para Dresden jogar as 11 jornadas.

Nunca pensei vir a ter de desistir de um jogo, infelizmente, isso aconteceu porque me senti mal, talvez por o jogo ter sido logo de manhã. Como foi na última sessão, não houve a questão do que fazer "a seguir", mas provavelmente não iria poder continuar a jogar nas mesmas condições.

No entanto, nada disto invalida o facto de o facto de jogarmos apenas as 4 ter tido influência nos nossos resultados. Se tivessemos uma suplente à altura os nossos resultados teriam sido obviamente melhores, porque poderiamos ter descansado nas rondas em que defrontámos adversárias mais acessíveis, ou, no meu caso, poderia ter descansado assim que me comecei a sentir pior. É de lamentar que tenha existido um lugar vago pago pela organização e a FPX não ter enviado ninguém a esse lugar...

Agora, nas condições em que nos encontrávamos e que, apesar de discordarmos, tinhamos aceite, com a Maria Armanda como 5ª jogadora, a substituição de uma de nós iria ter influência negativa na equipa pois a Maria Armanda não se encontrava em Dresden para jogar nem teria força de jogo para defrontar a maioria das adversárias que enfrentámos. Na minha opinião esta seria uma influência negativa maior do que aquela provocada por eu não me encontrar nas melhores condições de saúde.”

A esta critica, junta-se a voz da 1ª tabuleiro Portuguesa: Catarina é peremptória ao afirmar: “desde a Olimpíada de 2000, a selecção feminina não teve qualquer apoio!” e depois, com a mesma frontalidade revelada por Ariana, continuou: “foi pena que tudo se tenha decidido muito em cima da hora de início da Olimpíada. Em Outubro, pedi uma reunião à Federação, mas não tive resposta. Quase na altura de partirmos, a Maria Armanda informou por e-mail que apenas seria capitã de equipa, não estando disponível para jogar qualquer partida, a não ser que algo de transcendente acontecesse. Mas em minha opinião o problema de fundo é a inexistência de uma 5ª jogadora com força de jogo equivalente ao de nós as quatro e para isso é que a FPX devia olhar, proporcionando condições reais de evolução às restantes jogadoras
(...)

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Adenda ao post sobre a Fórmula do Sucesso


Em adenda ao último post e, porque não?, interagindo com a dúvida suscitada no Xadrezismo ("A partir daqui, o que passarei a escrever, é tomando como “bom” tudo o que vi no site oficial (o que é um enorme risco, face Às incorrecções que por ali aconteceram em toda a Olimpíada…). Acontece que a partida da Ariana Pintor, regista uma derrota após apenas 18 lances, sem que se perceba o porquê da mesma.Numa posição normalíssima, equilibrada ainda com muito jogo pela frente: o resultado lá está: 0-1!"), um excerto retirado na notícia do site da Associação de Xadrez do Porto sobre a última ronda da Olimpíada feminina:


A MFF Ariana Pintor, desde muito cedo em debilidade física e acompanhada pelo médico da organização, acabou por desistir prematuramente no último jogo e finalizou a sua participação a ser examinada num hospital de Dresden.


A selecção feminina, jogando sem suplente e desde muito cedo na prova com a WFM ARIANA PINTOR, 2º tabuleiro, em debilidade física e acompanhada pelo médico da organização, acabando por desistir prematuramente no último jogo e finalizar a sua participação a ser examinada num hospital de Dresden, arranca um excelente (dadas as circunstâncias) 46º lugar, 3 acima do 49º inicial, fazendo das fraquezas forças para derrotar estoicamente as canadianas por 2,5-1,5, com o resultado desfavorável por 0-1 quase desde o início, fazendo jus à dupla norma para WIM alcançada pela jovem campeã nacional WFM ANA BAPTISTA.

Nunca ficaram a zero, nem quando pela frente estavam selecções como a França, Israel, Cuba, Eslováquia ou Croácia. Os pontos altos foram as vitórias sobre El Salvador por 4-0 e a última, sobre o Canadá, mas também realizaram bons encontros frente a Cuba e Croácia, que perderam ambos tangencialmente.

Já não é a primeira vez que esta equipa presenteia o xadrez português com excelentes vitórias - está na memória de muitos a fantástica vitória sobre a Macedónia na última jornada da Olimpíada de 2006. Funciona unida como verdadeira equipa, mesmo nas condições mais adversas, e já merece uma suplente que possa suprir as suas "lesões" durante as grandes provas.

Sempre com esta equipa nas últimas três olimpíadas (nas duas primeiras a 3 tabuleiros, revesando-se):
2004 - Calviá - 49º lugar (51º à partida) - 48,8 % dos pontos possíveis;
2006 - Turim - 47º lugar (53º à partida) - 51,2 % dos pontos possíveis;
2008 - Dresden - 46º lugar (49º à partida) - 52,3 % dos pontos possíveis (apesar do contexto).


A Ariana está melhor e de regresso.

* * *

E, agora, uma adenda à adenda.




Retirada do xadrezismo - onde estão publicadas, com comentários, outras partidas jogadas pelos jogadores portugueses nas Olimpíadas -, aqui fica a partida jogada pela Ariana na 6.ª jornada, frente à MI Zuzana Hagarova, da Eslováquia.



Com comentários do MI António Fróis, segue o empate alcançado naquele encontro "contra uma jogadora com mais [278 pontos ...] depois de ter uma peça a menos e posição perdida desde o lance 29!!"



Vigorosa, hein? ;)

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Sucesso = talento + saúde/energia + vontade/espírito competitivo + preparação técnica


Conforme "planeado"(??), as titulares da Selecção Nacional - que se portaram muito bravamente -, participaram em todos os 11 encontros da Olimpíada.

Aqui do lado do senso comum, admito que deva ter sido necessária uma dose impressionante de energia.
É que os resultados da equipa não foram maus e nenhuma das jogadoras folgou, sendo que, neste artigo (que o MI Fróis me recomendou uma vez) de Dvoretsky, sobre as "componentes do sucesso", este reputado treinador cita Botvinnik para identificar 4 factores fundamentais, dos quais consta o "estado de saúde e as reservas de energia".

Continuando a pensar alto, e sendo certo que na Economia é que se conseguem fazer daquelas análises "ceteris paribus", durante a prova, que segui melhor que as partidas, ainda assim pareceu-me identificar alguns deslizes em alguns jogos.


Não se trata de mais um erro informático ostensivo.
Se o diagrama não é exacto, anda muito próximo da posição e do tempo final. E do resultado, pois.


Será que, com o mesmo descanso que as adversárias, isto é, em condições semelhantes, as nossas jogadoras seriam induzidas em erro? Ou, estando mais descansadas, deixar-se-iam cair em apuros de tempo / erros de desatenção, como, por exemplo, dar uma qualidade em um?

Pode ser que, no balanço da prova, os responsáveis escrevam umas linhas sobre a aplicação da teoria de Mikhail Botvinnik aos resultados da selecção feminina (e, já agora, sobre as considerações sobre "o papel do Capitão de equipa", tal como preconizado por Kevin Spraggett no ponto 1.A deste post).

De outro modo: a (regulamentar) presença da Bianca Jeremias poderia ter sido uma mais valia? Nem que fosse, no limite, para "queimar" num dos primeiros tabuleiros de encontros desnivelados, para que as titulares surgissem, nos mais equilibrados, em melhores condições?

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Olimpíadas 2008 = Olimpíadas 2004



Em primeiro plano, Ruben Pereira - António Pereira dos Santos.


António Pereira dos Santos participou numa Olimpíada, em 1982, tendo sido Campeão Nacional em ritmo rápido, em 1976. Venceu 3 Taças de Portugal e o Torneio de Mestres em duas ocasiões. O seu curriculum desportivo, enquanto atleta, é muito vasto. Por mais recentes, destacam-se o 8.º lugar no Torneio de Mestres deste ano (6.º na edição do ano passado) e o 6.º lugar no Campeonato Nacional Absoluto em 2007.

Responsável por uma coluna de xadrez no Diário de Notícias, em 2004 era o Presidente do Conselho Técnico da Associação de Xadrez de Lisboa. Nessa altura e nessa qualidade, escreveu este texto sobre as selecções nacionais que estariam presentes nas Olimpíadas de Calvià.

Agora, "embora este triste episódio da representação nacional nas olimpíadas de Dresden tenha terminado (pelo menos nesta parte) com o lamentável fim que conhecemos, envio-vos a minha posição sobre o assunto dado que fui parte interveniente no episódio, também lamentável, da representação em Calvià 2004, para o fim que julgarem conveniente".

Trata-se de um texto que resume o essencial do Caso GM António Fernandes/Bianca Jeremias, adita novos elementos que muitos, como eu, provavelmente desconheciam, e rebate, no ponto, as justificações mal amanhadas que foram lançadas pela Direcção da FPX.


António Pereira dos Santos em discurso directo:

A partida das selecções olímpicas para Dresden foi precedida, como sabemos, por um processo de convocação polémico que só não classifico de “sem precedentes” porque os teve.

E foi uma polémica tão desnecessária quanto inevitável.
Desnecessária porque cumprindo o Regulamento das Representações Nacionais e convidando um seleccionador tendo como requisitos um conhecimento mínimo da modalidade e do conjunto dos melhores xadrezistas portugueses quer absolutos quer femininos, bom senso, isenção e capacidade de decisão, ter-se-iam levado as selecções absoluta e feminina a Dresden. Assim foram duas equipas desfalcadas.
[sic]
Inevitável, porque os casos de incumprimento de regulamentos observados nos últimos 7 anos, aceites com tanta passividade e, em alguns casos, com aprovação em AG pela maioria das associações, prenunciavam a ocorrência de novos casos de decisão discricionária.


Vejamos alguns casos ocorridos no passado recente e que referi num documento que apresentei num debate no seio da APMX:

a.
O caso Fátima Vieira em 2002. O presidente da FPX era o Luís Costa. O caso foi resolvido pela decisão de não participação na olimpíada feminina depois de algumas das xadrezistas se terem recusado a participar num torneio de selecção com a Fátima Vieira por considerarem que esta “fabricou” resultados em torneios com o intuito de fazer subir o seu Elo;

b.
O caso da selecção feminina para a olimpíada de Calvià. O presidente da Comissão Administrativa (por demissão do Luís Costa) era o António Bravo. A Comissão informou que não havia verbas para custear as passagens dos xadrezistas e estes comprometeram-se a custeá-las. A selecção feminina foi formada “misteriosamente” ignorando a campeã nacional[sic] (se não me engano já penta campeã na altura), xadrezista mais activa do país e melhor Elo feminino com uma diferença apreciável para a 2ª do ranking. Tudo com a complacência do presidente da Comissão Administrativa que até afirmou que não tinha nada a ver com o assunto. O caso foi resolvido depois da expressão da revolta pelo que estava a acontecer (um dos que se exprimiu fui eu e, por isso, fui considerado pouco responsável) e de um parecer requerido, à última hora, pelo Presidente da Comissão Administrativa ao Conselho Jurisdicional da FPX. No parecer o Dr. António Ferreira foi exemplar e, até, pedagógico orientando no sentido de como se devia interpretar o RRN.[sic] A Catarina Leite foi convocada pouco tempo antes do começo da Olimpíada e a Sofia Henriques foi designada capitã em substituição do lugar de seleccionada por se considerar que tinha ganho direitos (?!). Neste caso a selecção foi alterada quase em cima da hora.[sic]

c. O caso do protesto do GCO em 2007. O caso tem a ver com a apresentação de 4 estrangeiros por uma das equipas da II divisão. A FPX recebeu um ofício da Secretaria de Estado da Juventude e do Desporto onde dava conhecimento de uma directiva comunitária que estabelecia que as federações desportivas deviam passar para a legislação nacional um articulado onde não poderia ser impedida a participação de estrangeiros em todos os tabuleiros numa partida. Este ofício foi sonegado a um ex-director da FPX (demitiu-se por esse motivo) que dele queria tomar conhecimento. O senhor Presidente da FPX (o actual) disse que não podia cumprir o regulamento da FPX (?) que regulamentava esta matéria. É importante fazer notar que uma Directiva comunitária, ao contrário de um Regulamento comunitário, não faz fé de lei nem tem o primado sobre a legislação nacional. A FPX foi a única federação desportiva que não cumpriu a lei!
[sic]

d. Finalmente o caso das actuais convocatórias que, face à constante impunidade sentida pelos dirigentes, muito devido à passividade da comunidade xadrezista, e também a alguma cumplicidade da AG, volta a enfermar de várias ilegalidades e daquelas classificações que já referi acima.


O xadrez tem este problema: os xadrezistas têm muita dificuldade em viver fora do seu umbigo. E os dirigentes comungam dessa característica pois são, praticamente todos, mais ou menos praticantes.

Recordo alguns dos passos mais importantes deste caso:

1. No dia 12 de Julho de 2008 foram colocadas na página da FPX as convocatórias das selecções absoluta e feminina dizendo que as constituições resultaram da aplicação dos critérios estabelecidos;

2. Num documento em que dá a conhecer os “critérios estabelecidos” a FPX explica por que razão decidiu abrir uma excepção aos torneios de mestres e de honra que se realizaram fora das datas inicialmente determinadas. Nada diz sobre o campeonato nacional feminino do qual já conhecia, no dia 12 de Julho, a lista de xadrezistas inscritas. Também era sabido pela FPX, creio eu, o critério que disseram ter adoptado “…participação no campeonato da época em curso…”
[sic] (os conceitos de dead line e de boletim devem variar consoante as ocasiões ou, como na prática política, conforme os interesses);

3. Não foi explicado por que razão se consideram importantes as expectativas criadas pelo calendário inicialmente previsto para aqueles 2 torneios e se consideram irrelevantes as expectativas criadas pelas datas da olimpíada, já conhecidas em Novembro de 2007, em conjunção com os torneios importantes do calendário nacional como são os campeonatos nacionais (absoluto e feminino) e o campeonato nacional por equipas, único em Portugal que dá a possibilidade de obtenção de normas até à de GM;

4. Num documento que classifico de caricato, publicado na página da federação no dia 7 de Outubro, a direcção da FPX diz que decidiu seguir os procedimentos das anteriores direcções para a convocatória e o porta-voz da direcção, neste caso o Presidente, assumiria a função de seleccionador “cumprindo as decisões da direcção
[sic]. Sobre isto deixemos esclarecido que:

a. As anteriores direcções não seguiram estes procedimentos
[sic]. Embora sejam questionáveis os critérios adoptados, por deles não resultarem as melhores selecções, o certo é que tanto para a olimpíada de 2004 como para a olimpíada de 2006 as direcções vigentes designaram um seleccionador nacional (o Spraggett para a selecção absoluta de 2004 e o Fernando Gouveia para as selecções absoluta e feminina de 2006). Os seleccionadores foram identificados pela FPX com antecedência pelo que, no melhor dos casos, o “esclarecimento” deste comunicado é legitimado pela ignorância [sic] destes factos por parte da actual direcção;

b. É um abuso de liberdade e um desrespeito pela experiência dos xadrezistas, pelo menos dos que andam nisto há alguns anos, considerar que a designação de um seleccionador implica, obrigatoriamente (depreende-se pelo modo como se esclarece), um contrato com os consequentes custos em termos financeiros;

c. Fica sem se saber se esta FPX concorda que estes critérios são os que garantem a escolha das melhores selecções ou se, pura e simplesmente, o facto de terem sido adoptados pela direcção anterior e de terem servido para convocar a selecção que jogou o torneio das 4 nações em 2007, faz deles bons critérios;

d. É confusa a informação (4 meses atrasada!)
[sic] de que o porta-voz da direcção assumiu a função de seleccionador e ainda mais confusa quando se diz que o porta-voz (ou seleccionador?!) cumpre as decisões da direcção, ou seja, não cumpre a função para a qual foi nomeado. Não sei se estão a ver? Trata-se de saber de quem é a responsabilidade. Eu fiquei na mesma. Em branco. Ainda por cima esta informação é dada em termos de esclarecimento no dia 7 de Outubro de 2008 depois de nada ser dito em várias outras ocasiões sobre este assunto, quer por escrito, quer oralmente; [sic]

e. O prazo estabelecido pela FIDE não foi 12 de Julho de 2008. Desde o início de Junho que foi prorrogado para 12 de Setembro de 2008. Pelo menos para as mentes esclarecidas. Para as ingénuas já não sei;

f. Os seleccionados não foram todos contactados como é escrito neste esclarecimento. Estas insistências por parte de FPX são vergonhosas. Classificá-las de inverdades é mesmo o melhor que se pode fazer. Eles sabem bem que não é verdade;

g. A decisão tomada não é, obviamente, válida.


Um homem com carradas de razão não pode fazer nada contra um embuste bem montado. São os aspectos negativos da democracia. Uma direcção é eleita democraticamente e dirige de forma autocrática e discricionária, cometendo todo o género de atropelos, decidindo de forma incompetente e irresponsável, não admitindo o prejuízo causado a pessoas e ao próprio país, utilizando o estatuto de utilidade pública e subsídios do IDP que deveriam ter melhor utilização.

Tudo funciona devido à falta de regras punitivas e à morosidade de intervenção em casos desta natureza que, por isso, se multiplicam.

Ainda por cima, de acordo com as informações veiculadas ao jornal Record, a responsabilidade de não se cumprir o regulamento
[sic], agora, é da APMX porque não fez nada para o alterar!

E sobre outra afirmação veiculada por este jornal desportivo, sobre o valor da selecção devo dizer que a prática de todas as direcções anteriores (desde há cerca de 30 anos) nunca testemunhou uma afirmação de que a selecção não perdia valor com o desfalque do campeão nacional e do xadrezista com melhores provas (e ranking) dadas no período que antecede a prova. Isso só aconteceu agora e em 2004.
[sic]

A selecção feminina merece um comentário à parte embora, neste caso, o ardil seja tão infantil que custe a crer que pessoas adultas que se candidataram a funções desta responsabilidade tenham decidido com tamanha desfaçatez.
A senhora Maria Armanda Plácido, vice-presidente da FPX e presidente da AX de Lisboa apresentou um desempenho sempre negativo durante as poucas provas em que participou no ano de 2008 e apresenta um elo de cerca de 1750. Há várias xadrezistas, todas elas jovens e em progressão, com valor superior e mais elo do que ela. Antes da data da convocatória a Direcção da FPX tinha em seu poder a lista das xadrezistas inscritas no campeonato nacional feminino onde constavam estas jovens e onde não constava a jogadora seleccionada. Mas a FPX preferiu gastar energias em encontrar uma excepção para incluir o torneio de mestres nas contas da convocatória e ignorou esta prova especificamente referida nos seus critérios. Acho que para os bons entendedores chega.

Sorte tem a Bianca Jeremias em poder com facilidade pedir a nacionalidade alemã. Terá mais possibilidades, apoio para evoluir e será respeitada!
[sic]

Outro argumento muito referido pela FPX foi o do prejuízo que seria causado aos xadrezistas convocados de forma ilegal que fossem substituídos por nova convocatória. Estranhamente, nunca foram referidos os prejuízos causados àqueles que
[sic], por força de uma decisão irresponsável, prepotente e com incumprimento do regulamento em vigor, não foram convocados [sic]. Vale o mesmo reparo para as expectativas criadas. É que têm mais valor as expectativas que se buscam através dos resultados obtidos do que aquelas que derivam de um benefício obtido por incúria de quem decide. Permito-me não comentar os benefícios obtidos por conflito de interesses ou favorecimento.

No caso das presentes convocatórias há a referir o grave prejuízo causado ao GM António Fernandes que, tendo conquistado o campeonato nacional a tempo de ser convocado, viu a oportunidade de lutar pelo recorde mundial de participações em olimpíadas (já participou em 14)
[sic], cerceada por esta decisão.
Acrescentem-se ainda os prejuízos nas carreiras dos xadrezistas que apresentavam, claramente, melhores registos nesta altura.
A presença numa olimpíada, até pelos contactos que se estabelecem, é sempre um benefício para a carreira de um xadrezista. E quando se ostenta o título de Grande Mestre pode, também, trazer benefícios financeiros.
E quanto à Bianca questiona-se se “cortar as pernas” a uma jovem de 19 anos com quase mais 200 pontos de Elo do que a 5ª seleccionada não é prejudicar a carreira.

Finalmente o argumento de que se deve agradecer o tempo dispendido pelos directores (candidatos por opção própria), em desfavor das suas vidas particulares, a favor da modalidade, não colhe de todo. Trata-se de mais uma aplicação do princípio do umbigo
[sic]. Há muita gente, xadrezista e não só, que dedica tão ou mais tempo, roubado à sua vida particular, à modalidade. Por opção própria. A questão de terem tomado decisões alternativas ao dirigismo na FPX é um direito que lhes assiste e que deve ser respeitado.

Cumprimentos a todos,
António P. Santos


PS:
Já depois de ter redigido este documento tomei conhecimento que, em plena AG realizada no passado dia 9 de Novembro, o presidente da FPX afirmou, penso que em jeito de justificação, que a senhora Maria Armanda Plácido não prejudicaria o desempenho da selecção feminina porque até nem iria jogar.
Uma posição que ainda descredibiliza mais todo o processo e que realça a desfaçatez com que se prejudica uma jovem de 19 anos sem pudor nenhum.
Afinal se era para não jogar, não poderia ir a Dresden como capitã da equipa e levar uma 5ª xadrezista que, obviamente irá ter de jogar algumas partidas?
Tem alguma justificação esta conduta?
São as datas e os critérios que a justificam?
Não, nem isso, nem incompetência, nem inexperiência, nem nada!

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Jogamos com menos uma??

Esta estória das Olimpíadas não deixa de surpreender.


A equipa titular feminina, em 2006.


Na equipa feminina, o samba não é para pé de chumbo:

- Começou com a Bianca Jeremias a ser preterida de forma nada consensual;
- A jogadora Armanda Plácido foi a quinta nomeada, pelo que é (era?) a nossa suplente;
- A xadrezista suplente, que actualmente não tem clube (fonte: AXP), foi nomeada capitã;
- No site oficial das Olimpíadas não consta essa qualidade;
- Mas no site da FPX tal é reafirmado hoje;


Agora, a última "curiosidade", retirada de um dos últimos posts na página da Federação:

"A comitiva portuguesa que partiu para a Alemanha é constituida por Armanda Plácido, capitã da selecção feminina e chefe da comitiva (...) Este grande evento mundial decorre de 13 a 25 de Novembro. Armanda Plácido representará a FPX no Congresso da FIDE, que decorrerá de 17 a 25 de Novembro também em Dresden."

Ou seja, Armando Plácido é capitã (jogadora, ainda que suplente) da selecção feminina e chefe da comitiva. Vai, pois, ter funções administrativas e de jogadora, entre 13 e 25 de Novembro, neste grande evento mundial.
Mas também vai representar a FPX no Congresso da FIDE, de 17 a 25 de Novembro.

Das três, uma: ou tem o dom da ubiquidade, ou está concentrada na equipa e no tabuleiro e não no Congresso, ou está no Congresso e não está na Olimpíada.

Certo que podia não ter aceite tantas funções. Mas, como muitas vezes se ouve no Tribunal das Antas, "a culpa não é só tua, também é de quem te pôs aí". Todavia, como, no caso, a capitã, jogadora, chefe e representante, também é vice-presidente do órgão que convoca as selecções, isto é mesmo uma grande confusão. Felizmente, estará para breve a publicação, e posterior entrada em vigor, do novo Regime Jurídico das Federações Desportivas que, segundo consta, poderá aliviar alguns dirigentes: parece que deixará de ser permitido acumular cargos directivos na Federação com cargos directivos em Associações Distritais. E, na mesma lógica, será imposta a limitação de mandatos. Quando sair no Diário, logo se verá quais são as novidades.

Agora, voltando à Olimpíada, se abafar uma só pessoa com tantas funções já era desaconselhável, parece um disparate ENORME dar-lhe outra, com esta dimensão, num Congresso que já é conhecido como o das Reformas, mesmo que se garanta a rotatividade da equipa apenas nas primeiras 4 partidas (quatro! até dia 17 jogam-se 4 das 11 rondas previstas)!!!
Como é que a estratégia é a capitã e chefe de comitiva passar a part-time, mesmo antes de o torneio chegar a meio? Jogamos com menos uma jogadora mais de metade da prova?
Se já era duvidoso mandatar o capitão da selecção masculina para o Congresso, quanto mais uma jogadora. Enfim, peripécias e curiosidades que ainda conseguem surpreender mesmo depois de todo o processo convocatório.


E como até o acaso brinca com os jogadores, quem é que repara na particularidade desta foto que ilustra o post do site da FPX e que passou, seguramente, despercebido ao webmaster?


Alguns elementos da comitiva que partem do aeroporto de Lisboa.


Dica 1: Não se trata da ausência do GM Fernandes ou da Bianca Jeremias.
Dica 2: É uma espécie de "Descubra as diferenças", entre as duas fotos deste post.
Dica 3: José Manuel Meirim, no Colectividade Desportiva, sobre questão semelhante, escreveu: (...) Sobre o Conselho Nacional do Desporto, seus normativos, composição, funcionamento e resultados, já muito escrevi noutro local. Hoje, algo motivado pelos resultados alcançados no último plenário, realizado terça-feira passada, destaco o seu logotipo. Esse sinal distintivo do CND usado em cartazes, na página da Secretaria de Estado da Juventude e do Desporto, em pastas, cadernos de rascunho(??), folhas e for aí fora, é - não se duvide - apelativo, de bom gosto. Adivinha-se uma inspiração, um ponto de partida, dado o carácter nacional do órgão: a bandeira nacional. Nada mais adequado. Contudo, uma visão comparativa mais atenta constata uma diferença. O leitor verá com facilidade. (...) Ou será mais um sinal de que aquilo que nasce torto, tarde ou nunca se endireita?

ESCLARECIMENTO: Faltam 2 dias...



Em post anterior, intitulado "Faltam 2 dias...", relativo à notícia publicada na última edição do Expresso, de que constava a frase "O Grande Mestre António Fernandes acusa António Bravo, Presidente da Federação Portuguesa de Xadrez (FPX) e simultaneamente seleccionador nacional, de “tráfico de influência” por ter deixado de fora das Olimpíadas os melhores xadrezistas portugueses", escrevi que "depois de publicadas as citadas declarações num dos semanários de maior expressão nacional, uma vez que o crime de tráfico de influências (um crime contra o Estado, previsto no artigo 335.º do Código Penal) é um crime público (ie, dispensa queixa e acusação particular), não estranharia que o DIAP fosse à FPX saber se efectivamente há indícios da prática do crime...".

num outro post, havia escrito, relativamente a uma peça do Record, que ela continha "algumas imprecisões, habituais no jornalismo actual (como se costuma dizer, "só quem nunca leu nada sobre algo que conhece é que acredita em tudo o que vem escrito na imprensa")".

Tal sucedeu nesta notícia do Expresso. De tal modo que, além de entrar em contacto com a jornalista, o GM António Fernandes entendeu que deveria "informar a comunidade jornalística", o que fez através de comentário ao dito post.

Por entender que esta informação merece maior destaque e, também, para, de algum modo, minorar os efeitos daquela minha consideração sobre o DIAP (que, sendo plausível, não deixa de poder ser considerada inquietante por alguns), deixo aqui transcrito o comunicado do GM António Fernandes:



Venho por por este meio informar a comunidade xadrezista que enviei à jornalista do Expresso, responsável pela notícia saída naquele semanário no passado sábado, uma nota do seguinte teor.

Boa noite Isabel Paulo,

Li com agrado a notícia saída no Expresso, do passado sábado, a qual corresponde à situação actual da modalidade e sintetiza com clareza a forma como foram escolhidos os membros das selecções nacionais às Olimpíadas de Xadrez e, em especial, a forma incorrecta como todo o processo decorreu.

Gostaria no entanto de clarificar o texto da notícia.
A expressão «tráfico de influência» deve ser enquadrada, até porque surge entre aspas e transmite a ideia de que eu formulei a acusação tal como vem referida. Ora, não foi minha intenção afirmar a certeza de que o Presidente da FPX exerce «tráfico de influência», muito menos com o sentido jurídico rigoroso que pode estar-lhe associado.

O que afirmei, e mantenho, foi que as irregularidades cometidas e a falta de transparência do processo fazem com que as pessoas se interroguem se, por detrás disto tudo não haverá mais do que mera ausência de bom senso e de incompetência na aplicação dos regulamentos, o que já não seria pouco!

Espero ter contribuído para esclarecer a minha posição sobre este assunto.

Com os melhores cumprimentos,
António Fernandes




Neste dia em que se joga a primeira jornada da Olimpíada, aproveito a deixa para recordar a luta pela legalidade do GM António Fernandes, sublinhar que me parece que lhe assiste a razão (não em todos os argumentos mas quanto à questão de fundo: deveria ter sido efectuada nova convocatória após o Campeonato Nacional, que o incluísse, uma vez que os pressupostos de facto da anterior se alteraram nesse momento, dado que o novo campeão nacional deveria ser convocado, por inerência, nos termos do regulamento aplicável) e, se é certo que este é um daqueles casos em que não pode haver 100% de certezas, este bem pode ser um caso emblemático da fiscalização jurisdicional da actividade administrativa de uma federação desportiva.

Além de bons xadrezistas, bons torneios, boas arbitragem, bons treinadores, bons livros, boas direcções de prova, bons blogues/foruns/discussões, bons dirigentes..., o xadrez português também precisa de uma boa administração e de boa aplicação da justiça desportiva.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

AG da FPX foge à polémica das Olimpíadas



A Assembleia Geral da FPX que decorreu no último domingo - com o ponto único "Apreciação, discussão e votação do Plano de Actividades e Orçamento da FPX para 2009" (as Olimpíadas tinham, anteriormente, ficado de fora) -, aprovou aqueles documentos. Desconhece-se a votação mas presume-se que a Associação Distrital de Faro não tenha estado presente.

A notícia não está no site da FPX mas no do diário desportivo Record.


Xadrez: Selecções sem debate
AG da FPX foge à polémica das Olimpíadas


A assembleia geral da Federação (FPX) aprovou o orçamento, mas sem contemplar o debate sobre regulamentos e critérios das Selecções para as Olimpíadas de Dresden, tal como pretendia a Associação de Mestres (APMX), que representa os jogadores mais cotados.

António Fernandes manifestou-se desapontado com o desfecho, porque a FPX alegou que a assembleia geral não reunia condições para debater a polémica, enquanto a tutela (IDP) continua a não dar resposta à contestação do grande mestre e campeão nacional, que ficou fora da equipa das quinas. O xadrezista disse de sua justiça: “As irregularidades cometidas e a falta de transparência do processo fazem com que as pessoas se interroguem se por trás disto tudo não haverá mais do que mera ausência de bom senso e de incompetência na aplicação dos regulamentos.”

A convocatória para as Selecções femininas também não é pacífica, dada a exclusão de algumas das atletas mais qualificadas.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Selecção de xadrez embarca amputada


Desta vez é a angolana! =D



O Mestre Nacional Catarino Domingos, do Grupo Desportivo da Epal, e a xadrezista Nelma Lopes, do Progresso do Sambizanga – Escola Macovi, são os grandes ausentes das selecções de xadrez, em ambos os sexos, que seguiram ontem para a Olimpíada de Dresden, Alemanha, de amanhã a 25 do corrente.
De acordo com o secretário-geral da Federação Angolana de Xadrez (FAX), Abraão dos Reis, os xadrezistas viram os pedidos de visto recusados pela Embaixada da Alemanha, por alegados problemas migratórios. (...)


Notícia "Selecção de xadrez embarca amputada" completa no Jornal de Angola.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Faltam 2 dias...



Faltam 2 dias para o início das Olimpíadas de Dresden, mas parece difícil prever quando é que elas acabarão.


A feminina de Calvià - 2004 ressuscitou.
E no Expresso diz-se (com algum exagero) que no xadrez português se vive "um autêntico clima de guerra" e que "os xadrezistas nacionais estão com o sangue quente". É o que efectivamente parece, de acordo com algumas das frases da peça: "O Grande Mestre António Fernandes acusa António Bravo, Presidente da Federação Portuguesa de Xadrez (FPX) e simultaneamente seleccionador nacional, de “tráfico de influência” por ter deixado de fora das Olimpíadas os melhores xadrezistas portugueses"; "António Fernandes, 46 anos, único português a ganhar uma medalha (bronze) em Olímpiadas, em 2002, acusa o Presidente da FPX, e «autonomeado seleccionador, de manipular a verdade»"; "Esta é também a opinião de Ramiro Lopes, presidente da Associação de Xadrez de Faro (AXF), que censura António Bravo por ter feito malabarismo nas convocatórias, «privilegiando amigos» em detrimento dos melhores"; "Segundo António Fernandes e Ramiro Lopes, a pressa na convocatória «não foi inocente»".
A APMX e o GM Luís Galego foram os únicos intervenientes citados que tentaram deixar a caixa de Pandora fechada, apesar de dizerem o que entenderam conveniente, aquela sustentando "que o processo foi mal conduzido pela FPX e que «a escolha feita revelou-se um erro com preço a pagar na qualidade das selecções»", e este frisando "ser «um absurdo tudo o que se está a passar»".



Entretanto, o Ala de Rei entrevistou o GM António Fernandes e publicou o resultado em que este sintetiza, de forma clara, a sua posição quanto à convocatória.

Nesta entrevista, o GM António Fernandes parece mais resignado quanto ao facto de "ser privado de lutar por mais uma medalha olímpica" e de "lutar por um recorde mundial (...)[ - ] poder vir a tornar-me o xadrezista em todo o mundo com maior número de representações olímpicas. Por exemplo o Korchnoi participou em 16 olimpíadas, eu participei até ao momento em 14.", já que, quando questionado quanto à forma "como espera ser ressarcido", a resposta já não passa pela inclusão na comitiva (como no início disse ao 16x16), mas pelos esclarecimentos que, em tempo oportuno (as olimpíadas começam depois de amanhã...), o seu advogado entenda prestar.

Ou seja, o caminho mais provável é, como se adivinhava (uma vez que a FPX não parece estar interessada em rever a sua posição), a via indemnizatória. A caixa do artigo do Expresso (disponível na parte final da transcrição da Casa do Xadrez vai no mesmo sentido: "O campeão nacional, se não for às Olimpíadas, vai processar judicialmente da direcção da FPX e o seu presidente, alegando danos morais e desportivos".



Aquela caixa veio, ainda, esclarecer outra questão. No ponto 6 deste post, escrevi que o GM António Fernandes se dirigiu ao SEJD embora a LOPCM parecesse indicar o IDP como o órgão competente para exercer a tutela sobre a FPX. A caixa do Expresso parece dar apoio a esta posição: "Laurentino Dias remeteu a queixa para a o Instituto de Desporto de Portugal, que esta a analisar a questão."

Por fim, apesar de o xadrez nacional não estar num "autêntico clima de guerra" - apenas porque o xadrez nacional não tem cultura escaquística suficiente para tomar como verdadeiramente seu um problema que, no individualismo das coisas, só afecta o GM António Fernandes e o equilíbrio de poder da FPX -, depois de publicadas as citadas declarações num dos semanários de maior expressão nacional, uma vez que o crime de tráfico de influências (um crime contra o Estado, previsto no artigo 335.º do Código Penal) é um crime público (ie, dispensa queixa e acusação particular), não estranharia que o DIAP fosse à FPX saber se efectivamente há indícios da prática do crime...


Seja como for, estão reunidos todos os ingredientes para acções e contra-acções judiciais. E da forma como os tribunais estão atolhados, apesar de faltarem 2 dias para o início das Olimpíadas, é possível que, em Portugal, Dresden 2008 dure anos (mesmo que as partes se cansem de esperar e cheguem a um acordo antes do trânsito em julgado da (última) decisão).

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Mais um forcing do GM António Fernandes


Nas vésperas de uma assembleia geral da FPX (para discussão e votação do plano de actividades e do orçamento para 2009) e do início das Olimpíadas, o GM António Fernandes requereu a reapreciação das convocatórias para aquela prova, juntando um parecer de 2004 do então Presidente do Conselho Jurisdicional da FPX, solicitado pelo actual Presidente da Direcção, então presidente da comissão administrativa que geria a mesma federação, e informando que algumas federações nacionais alteraram a composição da sua selecção, para a dita prova, em data posterior a 19 de Setembro.

Toda a informação na Casa do Xadrez.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

APMX comenta notícia do Record



A Associação Portuguesa de Mestres de Xadrez publicou, no seu site, esta "notícia do Record e um breve comentário".

- O Presidente da FPX diz "que nem sequer tem seleccionador, alegadamente por falta de verbas". A APMX cita o documento assinado pelo Presidente da FPX em que se comunica que "o porta-voz da selecção, neste caso o Presidente, assumiria a função de seleccionador cumprindo as decisões da direcção".

- Quanto à "afirmação de que a selecção não foi lesada porque os valores são semelhantes" daquele dirigente federativo, a APMX reputa-a (e bem!) como "realmente muito infeliz", uma vez que tal constatação não se encontra fundamentada e é notório que nem o campeão nacional nem o melhor elo nacional foram convocados.

- Por outro lado, à convocatória portuguesa realizada em Julho, a APMX contrapõe a espanhola, datada de 13 de Outubro de 2008, mesmo depois, portanto, de 12 de Setembro, o que poderá reforçar a posição do GM António Fernandes e abalar a minha (ainda que continue a considerar 12/9 como a data chave do processo, até porque a comunicação espanhola de Outubro não é a convocatória oficial enviada para a FIDE. Mas, como diz o povo, "não há fumo sem fogo"...)

- Finalmente, face a uma versão tímida do tão nacional discurso do coitadinho, a APMX questiona "durante quanto tempo se é Presidente de recurso", assinalando que "as decisões tomadas foram inteiramente da responsabilidade da Direcção da FPX, quer se concorde quer se discorde", depois de ressalvar que "é louvável pessoas ocupadas aceitarem utilizar uma grande parte do seu tempo em favor do xadrez, nomeadamente ocupando muito difíceis cargos directivos".

Outro xeque-mate preciso dos Mestres nacionais.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Re8-f7: !!, !, !?, ?!, ? ou ?? ?

A notícia, em versão electrónica, do diário desportivo Record, que divulgou o caso da convocatória para as Olimpíadas de Dresden, publicada há uma semana (22 de Outubro), terminava informando que "a Agência Lusa contactou a Federação Portuguesa de Xadrez, mas esta não respondeu em tempo oportuno".

Esta madrugada (29 de Outubro), foi publicada, no site do mesmo órgão de informação, nova notícia sobre o mesmo assunto, de que consta a posição do Presidente da Federação Portuguesa de Xadrez.



Sob o título "Xadrez: Olimpíadas voltam a provocar polémica" e o sub-título "Guerra de regulamentos amputa Selecção em Dresden", os dois primeiros parágrafos da notícia identificam a polémica, o terceiro (com o destaque "Absentismo" (?!)) transmite a posição do PFPX e o último parágrafo desta notícia sobre Dresden refere-se a... doping no xadrez.

(...)
Absentismo

António Bravo, presidente da FPX, diz que foi aplicada a metodologia das direcções anteriores em relação à Selecção, que nem sequer tem seleccionador, alegadamente por falta de verbas: “Voltar atrás seria uma falta de respeito pelos seleccionados. Cumprimos regulamentos. A Selecção não foi lesada porque os valores são semelhantes. A Associação de Mestres, por exemplo, nada fez para mudar os regulamentos. Sou presidente numa situação de recurso e não houve listas alternativas nas eleições. Existem locais próprios para estes assuntos serem debatidos.”
(...)




Sejam bem-vindos a mais uma tarde desportiva. A partida que tem honra de acompanhamento jornalístico não se joga no Vietname e continua a ser disputada num conjunto tabuleiro/peças pouco habitual, quiçá não homologado para provas FIDE.

Nos últimos lances, o Cavalo da Associação de Mestres manobrou calmamente, fazendo uma pausa para conversar com este, outra para ouvir aquele, mas lá capturou a torre negra em a8, finalizando a travessia Ch1-f2-d1-c3- (driblando o Bispo da Direcção da FPX que controla a diagonal b1-h7 e não deixa o Rei do GM António Fernandes aproximar-se do quadrado dos 5 seleccionados e do peão e7) -b5-c7-a8. Entretando, o Rei da FPX aguardava o início da Olimpíada para mandar promover os convocados em jogadores efectivos, jogando Re8-d8-e8-d8-e8-d8-e8 debaixo do guarda-chuva do peão e7, conhecido na bancada como "seleccionador mistério".

A razão que acompanha o Campeão em título, só aparentemente pregada pela Ta8, deslocou-se de a2 para a5 nas páginas do Record - xeque! -, e, no mesmo local, seguiu-se Re8-f7.


As negras jogam Re8-f7 nas páginas do Record


Apesar de as negras estarem com uma vantagem de tempo avassaladora - a queda da bandeira branca parece ser mesmo uma questão de dias -, este lance foi reflectido durante uma semana: as brancas deram xeque no dia 22 de Outubro e as negras responderam a 29, só depois de o Cavalo ter tomado em a8. Tal é possível porque no xadrez as regras cronológicas e temporais são próprias: por exemplo, fora do tabuleiro, o caminho mais curto entre dois pontos é em linha recta; mas o xadrez tem tempos que são só seus. Basta ver que o Rei demora o mesmo tempo a ir de a5 a h5 quer vá em linha recta quer vá aos ziguezagues... aqui, pelo menos, não há doping que o suspenda preventivamente por ziguezaguear, apesar de isso, à luz das regras de outros jogos, poder ser considerado aumento de rendimento!

Este lance Re8-f7 merece ser analisado.
Por um lado, cumpre os regulamentos - o Rei pode andar uma casa adjacente e, se tropeçou, pelo menos não caiu em e7 (peça largada, peça jogada!). Depois, permite ao Rei seguir para g8, onde um roque artifical tentará protegê-lo das investidas da Dama branca. Será este, porventura, o local próprio para debater a questão, pois, apesar de o Rei ter jogado em recurso - não houve voluntários para a interposição e não era possível tomar a Dama branca -, à míngua de alternativas, o Rei vai para junto do seu Bispo... se bem que não se saiba bem se o Bispo está em h7... ou em i8. Aqui da bancada de imprensa não se vê bem, devido ao poste de iluminação, sendo certo que já houve casos em que os Bispos negros participaram no jogo sem estarem no tabuleiro.
Por fim, mas não menos importante, a jogada Re8-f7 permite um ataque a descoberto ao Ca8 que, todavia, está bem defendido pela Dama branca e prepara-se para manobrar novamente, no sentido Ca8-c7-d5-e7, onde terá g8 em mira, estando prevista a chegada àquela casa para o dia 9 de Novembro. Certo que Cxe7 causa um certo incómodo - é mais um xeque, e como se dizia na sala onde aprendi a jogar "na dúvida dá-se xeque! Pode ser que seja mate!" - também resolve a questão do seleccionador, pelo que não se poderá dizer que o Cavalo nada fez.


Variante 9 de Novembro com o Bispo em i8.


Apesar de as peças críticas no tabuleiro serem, nesta posição, a Dama e o Cavalo branco e o Rei negro - além, claro, do Rei branco (sem rei não há jogo!) e dos seis peões negros (que estão suspensos até dia 12 de Novembro) - aquele lance Re8-f7 pretende também acabar com todo o jogo das brancas na ala de dama para centrar todas as atenções na de Rei, onde o cavalo do doping foi descoberto, sem querer, enquanto almoçava.


As negras pretendem resolver a polémica com Rf6-g5!!


Esta manobra surpreendente talvez não queira eclipsar a ala de Dama, mas não há dúvida que surpreende, até porque o Ch4 costuma estar amarrado à manjedoura na casa i5, onde, de acordo com muitos regulamentos, relincha se quiser que algum xadrezista lhe troque o feno ou a água. Se o Cavalo não relinchar, o jogador pode ir para casa sem correr o risco de ser preventivamente suspenso por tomar um diurético.

Mas não será necessário ir mais longe na análise, porque, além da posição não pedir a consideração de Rf6-g5 como tema candidato, agora que atento melhor na ala de Rei, bem vistas as coisas, a posição negra, concretamente a sua estrutura de peões, é ilegal: não é possível chegar àquela estrutura através de qualquer sequência de lances regulamentares. Há ali um peão, talvez o de h3 que deveria ser substituído por outro. Nem que fosse o de b2 que, de acordo com o cartão de atleta federado, é de uma xadrezista da AX Faro.

Prevê-se algum tempo de descanso neste match, pelo que voltaremos para acompanhar os Campeonatos do Mundo.

ps: Não é preciso dizer que qualquer semelhança com a coincidência é pura realidade.
ps2: Qualquer adepto pode dizer que todos os seleccionáveis são igualmente bons. O Presidente da FPX não pode dizer que a Selecção não saiu prejudicada porque se trata, aqui, de uma questão de justiça (aplicação do regulamento), não de valor desportivo.
ps3: Voltar atrás seria uma falta de respeito para os seleccionados? Que respeito receberam os jogadores que deveriam ter sido seleccionados mas não o foram? Voltar atrás não era oportuno por aquele motivo. Mas seria legal?

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

APMX com posição cristalina quanto às convocatórias para Dresden.





A Associação Portuguesa de Mestres de Xadrez emitiu um comunicado, que divulga no seu site, sobre as "selecções nacionais para as Olimpíadas de Dresden". Quem acompanha o xadrez fora da estrutura associativa, a maior parte das vezes que tem conhecimento desta Associação é para ler ou ouvir críticas à sua (in)existência/actuação, a mais das vezes relacionada com a "contagem de espingardas" efectuadas em momentos eleitorais. Foi, pois, com agradável surpresa que li este comunicado que, de forma concisa e elevada, põe os pontos nos is. Dos vários documentos/comunicados que têm circulado, é talvez o melhor sobre o assunto, dele discordando num ponto apenas: creio que a melhor interpretação dos regulamentos não permite concluir que, a 12 de Julho, a jogadora Armanda Plácido preenchesse os critérios estabelecidos para ser seleccionada, como já aqui escrevi uma vez. Mas é uma discordância menor.

Pela transparência e importância (trata-se de um sócio com direito de voto na AG da FPX), segue uma versão adaptada com as partes que considero mais interessantes assinaladas.

Este comunicado surge da verificação de um sentimento de discórdia bastante generalizado nos membros da APMX face às recentes escolhas para as selecções nacionais para as olimpíadas de xadrez que decorrerão em Dresden, e tem por objectivo apontar os pontos principais que estão na base dessa discórdia, frisando dessa maneira o profundo desacordo da APMX em relação a todo o processo que levou às ditas escolhas.

Por princípio, esta Associação defende a existência de um bom, objectivo e conhecido com considerável antecedência regulamento de representações nacionais. Bom no sentido em que permita tanto quanto possível a escolha dos melhores jogadores à data da prova. Objectivo no sentido em que permita uma relativamente simples compreensão do seu teor. Conhecido com considerável antecedência para que permita a qualquer jogador saber como fazer para tentar a sua selecção.
Sabendo que a melhoria dos regulamentos não deve ser discutida nem efectuada perto da data de convocatórias, frisamos que não é neste sentido que decorre a nossa posição. O que dizemos é que, mesmo com o regulamento em vigor, o processo de selecções foi muito mal conduzido pela Direcção da FPX.


No entendimento da APMX, a escolha dos seleccionados foi efectuada com base em critérios conhecidos e já utilizados no passado. No entanto, o prazo para aplicação dos ditos critérios deixou muito a desejar. É que embora se verificasse o conhecimento de outro prazo limite imposto pela organização, o dia 12 de Setembro de 2008 (já conhecido desde início de Junho), a Direcção da FPX manifestou no mesmo documento de esclarecimento [oficial, assinado pelo Presidente da FPX, em que se justifica o prazo e razões das escolhas efectuadas] o seu receio de penalizações financeiras e a consequente não consideração desta data limite como referência para a escolha do prazo de aplicação dos critérios."

Para a estrutura que representa e defende os Mestres de Xadrez filiados na FPX, em nome de uma melhor escolha, deveria ter sido muito melhor indagada a possibilidade de utilização de um prazo mais tardio. Diz-nos a experiência passada que muito mais importante do que o acto de explicitar os nomes é o acto de explicitar o número de jogadores. Os nomes podem ser concretizados mais perto da data da prova. Tudo leva a crer que uma simples argumentação junto da organização, junto com a indicação do número de pessoas a inscrever, resolveria o problema das penalizações. A escolha da data de 12 de Junho como referência para a escolha revelou-se um erro considerável com preço a pagar na qualidade das selecções escolhidas.
Outro ponto a realçar, de teor diferente, verificou-se na decisão relativa à selecção feminina. Um dos elementos escolhidos, a jogadora Maria Armanda Plácido, era na altura simultaneamente directora da FPX e seleccionada. Em princípio, este facto não levanta nenhum problema de incompatibilidade, não fosse o facto de os critérios só funcionarem na data em que foram utilizados, de a grande maioria da comunidade xadrezística desconfiar da sua força de jogo para esta representação e de colegas suas de selecção terem manifestado publicamente o mesmo tipo de desconfiança. Para mais, o Campeonato Nacional Feminino de 2008, um dos torneios mais relevantes para esta escolha não foi considerado excepção, por não terminar antes de 12 de Junho. Uma simples participação nesse campeonato já poderia alterar escolhas, independentemente dos pontos obtidos no campeonato.

Gostaríamos de ver uma Direcção da FPX com capacidade de análise, com bom senso, com capacidade de dar primazia à qualidade da selecção. Neste sentido, o facto de a seleccionada ser simultaneamente directora importa
. Pode não importar se se focar cegamente os critérios, aplicados numa data muito particular, mas interessa se contextualizarmos correctamente a questão
.

O documento termina realçando que a forma como se escolhem actualmente as selecções de xadrez e a forma como tudo está regulamentado não são totalmente coincidentes. O regulamento de representações nacionais foi aprovado em Assembleia-geral e está em vigor desde o dia 1 de Outubro de 2002. Nesse regulamento consta a figura do seleccionador que neste momento é o Presidente da FPX, António Bravo, acumulando duas funções, tal como pode ser lido no documento oficial da FPX anteriormente citado:
«Entrando em alguns detalhes: não sendo possível, por questões financeiras, contratar seleccionador, assim a direcção da FPX decidiu seguir os procedimentos das anteriores direcções para a convocatória e o porta-voz da direcção, neste caso o Presidente, assumiria a função de seleccionador cumprindo as decisões da direcção.»
Acontece que o que é utilizado actualmente são os critérios de selecção conhecidos de todos e não o poder decisório de um seleccionador. Pensamos que estas questões formais devem ser revistas. A APMX aproveita este documento para manifestar o seu interesse na participação em futuros trabalhos desse tipo.


O comunicado conclui assertivamente: a APMX reafirma o seu desacordo quanto ao processo que levou à escolha das seleccões nacionais para as olimpíadas de Dresden.

Uma posição límpida e cristalina que, pessoalmente, fica marcada pela consideração que "o prazo para aplicação dos ditos critérios deixou muito a desejar", pelo que, "em nome de uma melhor escolha, deveria ter sido muito melhor indagada a possibilidade de utilização de um prazo mais tardio".

O momento em que termina a possibilidade de a FPX indicar (logo, substituir) os elementos convocados junto da FIDE é, quanto a mim, o facto determinante que resolve o imbróglio em que se encontra o GM António Fernandes e a Bianca Jeremias. A FPX diz que esse momento terminou em 12 de Julho. O GM António Fernandes sustenta que é horas antes do início da competição, na reunião de capitães. A APMX não avança uma data, mas sempre diz que, pela "experiência passada", "muito mais importante do que o acto de explicitar os nomes é o acto de explicitar o número de jogadores. Os nomes podem ser concretizados mais perto da data da prova". Para já, continuo a pensar que esse momento foi 12 de Setembro, de acordo com o amplamente citado comunicado de Ignatius Leong, divulgado no site da organização em Junho: "Ignatius Leong, Chief Arbiter of the Chess Olympiad and General Secretary of the world chess association FIDE, surprised journalists at a press conference Tuesday, 03 June 2008.”We will have considerable renewals regarding the regulations in the 2008 Olympiad in Dresden,” the man from Singapore declares. For the first time, federations have to nominate their candidates until the fixed date of 12 September 2008. So far, changes in team compositions had been possible until a few hours prior to the beginning of the tournament."

Se assim for, pouco haverá a fazer para os xadrezistas serem convocados (nem através do Secretário de Estado que apenas tutela a FPX e não a FIDE). Só vejo dois caminhos: ou a FPX tenta que a FIDE abra uma excepção, aceitando a indicação dos jogadores em data posterior a 12 de Setembro (pouco provável, até porque a FPX está convicta de que agiu bem) ou o GM António Fernandes e a Bianca Jeremias apenas podem tentar ver os seus danos ressarcidos através da tal indemnização que se tem falado e sobre a qual escrevi em post anterior (realçando eventuais implicações da culpa dos lesados, havendo-a).

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Minuto 90: Campeão de xadrez recorre ao Governo




A edição em papel do diário desportivo Record publicou, hoje, um brevíssimo apontamento sobre xadrez. Infelizmente não é sobre o Campeonato do Mundo Sub-18, em que participam dois xadrezistas portugueses, nem sobre o Match de atribuição do título de Campeão Mundial Absoluto, tratando-se, antes, de mais um desenvolvimento no atribulado processo de preparação da representação nacional nas Olimpíadas de Dresden, no próximo mês. A notícia é sobre a exposição que o GM António Fernandes apresentou ao Dr. Laurentino Dias, Secretário de Estado da Juventude e do Desporto.

A peça ficou para as últimas páginas do jornal, precisamente numa secção que se chama "Minuto 90". O que tem o seu quê de curioso: no xadrez, a partida começa, não termina, no minuto 90. E o GM António Fernandes tem dito que o recurso ao tribunal é uma possibilidade...

A redacção publicada é, na íntegra, esta: "O campeão nacional absoluto, António Fernandes, recorreu para o secretário de Estado do Desporto por ter sido excluído da Selecção para as Olimpíadas".

Esta notícia resume a que foi publicada na edição electrónica do jornal - disponível aqui - em que são apresentados os factos já amplamente divulgados e posições recorrentemente esgrimidas. Há algumas imprecisões, habituais no jornalismo actual (como se costuma dizer, "só quem nunca leu nada sobre algo que conhece é que acredita em tudo o que vem escrito na imprensa"), nada de muito especial quanto ao que realmente importa (até porque muitas vezes o problema parece ser das fontes), sendo a principal novidade o facto de o GM António Fernandes ter feito uma exposição ao Senhor Secretário de Estado da Juventude e Desporto, embora não se saiba, ao certo, porquê e para quê. A versão electrónica apenas refere um "recurso" em que se "expõe" a "exclusão da selecção nacional".

Alguns pontos para enquadrar/problematizar a questão:

1. A Federação Portuguesa de Xadrez, uma vez que é dotada de utilidade pública desportiva, está inserida na administração pública autónoma.

2. O Governo é o órgão superior da administração pública (art. 182.º da Constituição da República), sendo constituído pelo Primeiro-Ministro, pelos Ministros e pelos Secretários e Subsecretários de Estado (art. 183.º, n.º 1, da CRP.)

3. Ao Governo compete exercer a tutela sobre a administração autónoma (art. 199.º, d), da CRP).

4. A tutela consiste "no conjunto de poderes de intervenção de uma pessoa colectiva pública [no caso, o Estado] na gestão de outra pessoa colectiva [a FPX], a fim de assegurar a legalidade ou o mérito da sua actuação", podendo, quanto ao conteúdo ser configurada como tutela inspectiva (faculdade de inspeccionar o financiamento e a actuação da entidade tutelada), tutela sancionatória (faculdade de aplicar sanções por preterição da legalidade ou mérito da actuação), tutela revogatória (faculdade de revogar actos praticados pela entidade tutelada) ou tutela substitutiva (faculdade de suprir as omissões da entidade tutelada, praticando os actos legalmente devidos) - cfr. o Curso de Direito Administrativo do Prof. Freitas do Amaral.

5. Aquele artigo 199.º, alínea d), não é uma norma de atribuição de competência, pelo que o Governo só pode exercer poderes de tutela no âmbito previsto pela lei. O Decreto-Lei n.º 144/93, de 26 de Abril, que estabelece o regime jurídico das federações desportivas e as condições de atribuição do estatuto de utilidade publica desportiva, determina que - artigo 10.º - "a fiscalização pela Administração Pública do exercício de poderes públicos e da utilização de dinheiros públicos é efectuada, nos termos da lei, mediante a realização de inspecções, inquéritos e sindicâncias".

6. O GM António Fernandes dirigiu-se ao Secretário de Estado da Juventude e do Desporto por, provavelmente, tal tutela ter passado para a competência deste, através de vários despachos de delegação e subdelegação de poderes. (A Lei Orgânica da Presidência do Conselho de Ministros, aprovada pelo Decreto-Lei n.º 202/2006, de 27 de Outubro, estatui - artigo 22.º, n.º 2, alínea f) - que é atribuição do Instituto do Desporto de Portugal "proceder a actividades de fiscalização".)

7. Se no âmbito desportivo não houver tutela revogatória ou substitutiva, não vai ser nesta sede que o GM António Fernandes vai ver a sua situação resolvida. E ainda que haja competência, provavelmente não haverá tempo útil - a competição começa no próximo dia 12 e não é líquido que, nesta altura, ainda possam ser alterados os convocados.

8. Se a tutela for inspectiva e sancionatória, o que acontecerá (apesar de eu não ter encontrado a norma que a prevê) se esta notícia do jornal Destak for fidedigna, "na sequência de um inquérito que confirm[e] a ilegalidade da situação, a [Federação pode ser] advertida a cumprir a legislação em vigor - além de [poderem ser] suspendidos [alguns] apoios financeiros (...). Caso a federação «persista sistematicamente» neste tipo de atitudes, a Secretaria de Estado do Desporto [pode equacionar] retirar-lhe o estatuto de utilidade pública".

9. Se se concluir que a FPX não actuou bem ao não convocar o GM António Fernandes, à míngua de tempo útil para o levar às Olimpíadas (e para aquele deduzir uma acção de condenação à prática de acto devido), não sendo possível esta "reparação natural", o advogado do xadrezista - que, segundo o Record, "está a estudar todas as possibilidades" - pode equacionar recorrer à via indemnizatória, no tribunal.

10. A Lei n.º 67/2007, de 31 de Dezembro, prevê, entre outras, a responsabilidade civil extra-contratual das entidades públicas por danos resultantes do exercício da função administrativa, correspondendo ao exercício desta função as omissões adoptadas no exercício de prerrogativas de poder público - artigo 1.º, n.ºs 1 e 2. Em traços muito largos, as pessoas colectivas públicas são responsáveis pelos danos que resultem de omissões ilícitas, cometidas com culpa leve, pelos titulares dos seus órgãos, funcionários ou agentes, no exercício da função administrativa e por causa desse exercício - artigo 7.º, n.º 1.
Consideram-se ilícitas as acções ou omissões dos titulares dos órgãos, funcionários e agentes que violem disposições regulamentares ou deveres objectivos de cuidado e de que resulte a ofensa de direitos ou interesses legalmente protegidos - artigo 9.º, n.º 1.
Por outro lado - artigo 10.º -, a culpa dos titulares de órgãos, funcionários e agentes deve ser apreciada pela diligência e aptidão que seja razoável exigir, nas circunstâncias de cada caso, de um titular de órgão, funcionário ou agente zeloso e cumpridor - n.º1 -, sendo que, para além dos casos previstos na lei, também se presume a culpa leve, por aplicação dos princípios gerais da responsabilidade civil, sempre que tenha havido incumprimento dos deveres de vigilância - n.º 3.
Finalmente - artigo 4.º -, quando o comportamento culposo do lesado tenha concorrido para a produção ou agravamento dos danos causados, designadamente por não ter utilizado a via processual adequada à eliminação do acto jurídico lesivo, cabe ao tribunal determinar, com base na gravidade das culpas de ambas as partes e nas consequências que delas tenham resultado, se a indemnização deve ser totalmente concedida, reduzida ou mesmo excluída.

Alguém consegue clarificar o objectivo ou as consequências deste procedimento iniciado pelo GM António Fernandes ou apontar eventuais erros nestes pontos?

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

O dia de amanhã das convocatórias para as selecções nacionais



Desde há vários meses que muito se tem escrito sobre as convocatórias para as selecções nacionais que disputarão as Olímpiadas de Dresden, no próximo mês.



A controvérsia surgiu primeiro na selecção feminina, logo em Julho, em que a não convocatória de Bianca Jeremias originou uma exposição da própria à FPX e um abaixo-assinado das participantes no Campeonato Nacional Feminino, tendo a discussão circulado por email, chegado à LusoXadrez e à blogosfera.

Fiquei com a ideia de que, neste caso, no momento em que a convocatória foi realizada, a Bianca Jeremias reunia as condições para ser a última xadrezista convocada para a prova, como cheguei a escrever aqui.



Agora a questão coloca-se em relação à selecção masculina. O GM António Fernandes, não convocado, entende que a aplicação dos Critérios definidos pela FPX para a convocação dos xadrezistas que devem representar a selecção nacional lhe garantem um lugar na equipa, por inerência, uma vez que é o actual Campeão Nacional Absoluto.

O GM António Fernandes apresentou uma contestação, que divulgou publicamente, com a qual pretendia alterar a convocatória existente, por forma a fazer parte da equipa. Muito se escreveu, nem sempre bem: em resposta a uma solicitação da AXP, alinhavei algumas ideias sobre a questão - que foram depois divulgadas numa nota daquela Associação - que não estão correctas (desde logo, numa das hipóteses equacionei uma incompetência absoluta - que geraria a nulidade da convocatória - quando, na verdade, quando muito existiria incompetência relativa - que gera mera anulabilidade).



De qualquer modo, creio que não valerá a pena esmiuçar a questão da (in)validade da convocatória, uma vez que a solução será sempre a mesma: não havendo qualquer nulidade, os eventuais vícios que gerariam a anulabilidade da convocatória (incompetência relativa da Direcção da FPX para a prática do acto convocatório; violação do regulamento que determina os critérios de convocação para as selecções nacionais) não poderiam ser arguidos nesta altura, pois o GM António Fernandes teria que ter apresentado a sua reclamação no prazo de 15 dias a contar do momento em que teve conhecimento da convocatória.

Parece, assim, que nada há a fazer quanto à produção de efeitos da convocatória existente, pois, uma vez que a FPX já informou, mais do que uma vez, que não a alterará (a não ser em caso de impedimento dos jogadores convocados). Mas se o recurso à justiça desportiva e ao tribunal administrativo não é procedimental e processualmente possível (a não ser que fosse alegada uma nulidade, eventualmente seguindo o caminho traçado pelo Prof. Freitas do Amaral no parecer relativo à crise do Conselho Jurisdicional da Fed. Portuguesa de Futebol, relato em livro recentemente publicado; mas, mesmo aí, sempre se teria que ver se se trata, ou não, de questão "estritamente desportiva", já que a discussão destas não é admissível em tribunal), tal não significa que a questão não deva ser discutida.

E tal discussão, mais do que efectuada pelos simpatizantes da modalidade - que naturalmente desejam que a sua equipa vá a jogo com a melhor formação possível -, a troca de impressões mais relevante terá que ser efectuada pelos sócios da FPX, na Assembleia Geral desta.



São várias as questões que todos gostariamos de ver dilucidadas, nomeadamente as seguintes:

- Certo que a inscrição da selecção teria que ser efectuada até Julho para a comitiva beneficiar do alojamento e da alimentação. Mas a indicação dos jogadores não terminou apenas em 12 de Setembro? E tal não era do conhecimento público deste Junho? ("For the first time, federations have to nominate their candidates until the fixed date of 12 September 2008")

- Independentemente da validade da convocatória, tendo a selecção nacional sido inscrita em Julho para garantir o alojamento e a alimentação gratuita, uma vez que os prazo para a apresentação da equipa só terminou em Setembro, por que é que o GM António Fernandes não foi integrado na comitiva? É que, antes de terminar o prazo de apresentação das equipas, o GM António Fernandes sagrou-se Campeão Nacional Absoluto - o que, de acordo com os regulamentos aplicáveis, lhe garante um lugar na selecção, por inerência.

- De outro modo: Por que é que a FPX não alterou a constituição da sua equipa, para nela incluir aquele que é, neste momento, o melhor português graduado na última lista de elo da FIDE, quando este reunia as condições para integrar a selecção, o prazo para apresentação da equipa não tinha terminado - nos termos do Boletim 2 - e o alojamento e as refeições estavam garantidos para uma comitiva de X elementos, sendo naturalmente irrelevante se estes elementos seriam os senhores A, B, C ou os senhores 1, 2, 3?

- De forma lapidar, a questão é colocada à FPX pelo GM Luís Galego, primeiro tabuleiro da selecção, durante muito tempo o melhor jogador português no ranking internacional (e com ganas de voltar a ser :P): "(...)não sei se haveria algum prémio para a primeira equipa a ser inscrita nas olímpiadas, mas se não ganhamos devemos estar na luta... e era sobre isto que eu queria dar a minha opinião. Qualquer selecção tem que participar com os melhores jogadores e deixar o campeão nacional e agora creio o melhor elo Fide (espero que por pouco tempo heh) acho um absurdo, sobretudo porque com estes 2 resultados estes jogadores preencheriam os requisitos necessários para fazerem parte da equipa e isto é que é importante! Conclusão estes dois jogadores conseguiram realizar os resultados dentro do prazo estabelecido pela Fide e em que nós decidimos ser mais papistas do que o Papa. Não sei o que se poderá fazer a não ser tentarem tudo para a inclusão destes jogadores na equipa, a ver se começamos a fazer as coisas bem para bem do xadrez...".

- Qual foi o destino dado à exposição apresentada pela Bianca Jeremias?



Os simpatizantes da modalidade podem discutir estes e outros assuntos nos clubes e na internet, podem participar em votações e emitir as suas opiniões. Alguns até podem expor a questão a entidades supra-federativas e à comunicação social. Mas, em última análise, o local onde se podem produzir os melhores resultados é na própria FPX. E, aí, continuando a Direcção a defender a sua convocatória e a exclusão de jogadores que deveriam representar o País, compete aos sócios, na Assembleia Geral, discutir a questão e deliberar sobre a bondade de tal opção para o xadrez nacional. Da moção de confiança à destituição dos órgãos sociais, passando pela alteração dos princípios orientadores da política da FPX, as hipóteses são variadas.

A minha dúvida é a de sempre: por que é que as soluções constantes das regras de convocatória aprovadas pela FPX não foram por esta concretizadas? O GM António Fernandes e a Bianca Jeremias tinham direito a representar o país, isso parece seguro. Todavia, o mais provável é ficarem em terra porque os princípios dos regulamentos não foram observados. Que responsabilidades e que consequências vão exigir as Associções Distritais na Assembleia Geral da FPX, sendo que o GM António Fernandes as informou do que se passava e solicitou aos órgãos competentes que este ponto conste da próxima Ordem de Trabalhos?

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Inscrição nas Olímpiadas - prazo prorrogado em alguns casos



Declaração conjunta da FIDE e dos organizadores de Dresden
Hoje, às 9h30, no site da FIDE

A delegation from FIDE, composed of FIDE Honorary Vice-President Israel Gelfer and Executive Director David Jarrett, visited Dresden today to discuss several issues regarding the preparation of the Chess Olympiad 2008 in Dresden, amongst them the issue of the late registration from several Federations.

(...)

The Federations concerned will be informed by FIDE and the Organizing Committee about the actions to be taken to register participation. The very final deadline for these Federations is next Friday, 19 September 2008, 11 pm. This must be done by online registration on the website www.dresden2008.org.

It was agreed that those Federations which had not yet contacted the Organizers in any way will not be accepted.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Selecção Olímpica Feminina - II

António Bravo, Presidente da FPX, divulga no site da Federação a seguinte nota sobre as

Olímpiadas de xadrez - Dresden 2008


De acordo com o regulamento, descrito no boletim nº1, publicado na página oficial das Olimpíadas, as inscrições terminavam a 12 de Julho.
Assim ficou decidido que só se consideravam competições até ao 31 de Maio (prazo estabelecido para a contabilização de provas para a lista de elo FIDE de Julho), para efeitos dos critérios das selecções olímpicas. Foi considerada uma excepção para os torneios de Mestres e de Honra, que estando inicialmente calendarizados para Maio e tendo sido adiados por questões organizativas, não deveriam penalizar os jogadores pelo facto da prova não se ter realizado na data prevista, uma vez que seria a última oportunidade para alguns jogadores conseguirem a sua selecção. De facto, verificou-se que não trouxe qualquer alteração pois os seleccionados satisfizeram todos os critérios mesmo sem os referidos torneios.
Com base nestas decisões foram aplicados os critérios e seleccionados os jogadores para as selecções olímpicas, que poderão consultar no campo “resultado” no ficheiro de performances de Julho de 2008. Foi igualmente decidido nomear o mestre internacional Joaquim Durão para capitão da selecção masculina e Armanda Plácido para capitã da selecção feminina. No final de Agosto, na página oficial das Olimpíadas, foi publicado o boletim nº 2, onde se informava que ainda aceitariam inscrições fora do prazo previamente estabelecido, até 12 de Setembro. Assim só se procederá à substituição de algum jogador que tenha algum motivo que o impeça de participar e será substituído de acordo com os resultados constantes no ficheiro de performances de Julho de 2008.


Em apenso, é publicado o ficheiro com os Critérios de convocação para a Selecção, além de se explicar que a perda de dados na página - a tal lipoaspiração - se deu por anomalia informática.



1 - É louvável que a FPX informe os interessados do que se está a passar.


2 - Não é inteiramente correcto que "De acordo com o regulamento, descrito no boletim nº1, publicado na página oficial das Olimpíadas, as inscrições terminavam a 12 de Julho". Só o registo online - que garantia alojamento gratuito - terminava nessa data.

Diz o Boletim n.º 1, ponto 5, p. 3: "Important note:
In any case of late registrations the Organizers do not guarantee the accommodation of the respective participants. In these cases Hotel expenses will be charged to the Federation.
"

Diz o Boletim n.º 2, ponto 2, p. 3:"Registration
For all federations the Online Registration was closed 12 July 2008 as was announced in Bulletin 1. Late registrations are still accepted until 12 September 2008.
Please be aware that in cases of late registrations hotel expenses will be charged to the respective Federation. If you wish to register your teams you are kindly asked to directly contact as soon as possible the responsible Manager Operations Mr Olaf Modrozynski at olaf.modrozynski@dresden2008.org, Phone +49 351 488-1638, Fax +49 351 488-1653.
"

Nenhuma diferença, pois, no ponto, entre os Boletins 1 e 2.


3 - Quanto à aplicação dos critérios, infelizmente, nem uma linha no site federativo. Ninguém sabe como foram aplicados. Não há nenhuma fundamentação.

Continuo, assim, convicto que a Bianca Jeremias reúne - e já reunia à data - todos os requisitos necessários para ser convocada. E que a Maria Plácido continua a não os reunir.

Nada do que é dito na comunicação - nomeadamente "ficou decidido que só se consideravam competições até ao 31 de Maio (prazo estabelecido para a contabilização de provas para a lista de elo FIDE de Julho), para efeitos dos critérios das selecções olímpicas" - refuta a posição aqui exposta em post anterior. É que essa decisão só podia ter como objecto a parte dos critérios que se referiam ao n.º de partidas realizados e ao cálculo das performances. Quanto aos Campeonatos Nacionais, o regulamento «que reproduz os critérios já estabelecidos desde 2005 pelas anteriores direcções» - cfr. primeiro parágrafo - é expresso: são relevantes "o da época em curso e o anterior" (n.º 2, alínea c), ponto I, parte final) [à participação na selecção feminina - que terá lugar na época 2008/2009].


4. Se quanto à substituição da Capitã, nada é dito, quanto à substituição das jogadoras o Presidente da FPX admite essa possibilidade, no caso de um "impedimento".

E de um erro na aplicação dos critérios?

No mínimo deveria ter sido divulgado a resposta dada a Bianca Jeremias que entregou, em mão, uma exposição em que questionava a validade da convocatória.

Neste momento, uma vez que a jogadora não tinha recebido qualquer resposta até ao início desta semana, tenho para mim que a Direcção da FPX, ou o seu Presidente, não tomaram aquela iniciativa da jogadora como uma reclamação/protesto, pelo que se abstiveram de tomar posição sobre ela. Espero estar enganado.

Na Ala de Rei já se tomou posição sobre a comunicação da FPX e equaciona-se a exposição junto de autoridades superiores e da opinião pública.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Selecção Olímpica Feminina

I. A primeira parte deste post (pontos 1 a 3) é uma versão reduzida de um texto já publicado na LusoXadrez, em 17 de Julho, aqui adaptada em virtude de a FPX ter retirado recentemente os documentos relevantes do seu site, e com aditamentos (parte final do n.º 1) nas referências efectuadas aos escritos do GM Kevin Spraggett e de Francisco Vieira.


II. A segunda parte (ponto 4 e seguintes) é inédita, embora tenha sido cedida à Bianca Jeremias que, no último dia do Nacional Feminino (20 de Julho), entregou em mão ao Senhor Presidente da FPX uma versão provisória que assumiu como sua.

Por a jogadora não ter obtido qualquer resposta da FPX, deixo aqui a minha opinião sobre a questão da convocatória para a Selecção Olímpica Portuguesa, em jeito de resposta/contributo à Carta Aberta escrita por Francisco Vieira.


III. O texto está assim dividido:
1. – Anúncio da convocatória para a Selecção Olímpica Feminina
A) – “O papel do Capitão de equipa” – por GM Kevin Spraggett
B) – “Carta Aberta a Maria Armanda Plácido” – por Francisco Vieira
2. – Critérios predefinidos a que deve obedecer a convocatória
3. - Convocatória para a Selecção Olímpica Portuguesa – Dresden 2008.
4. – Análise da convocatória
A) – “Participação” no Campeonato Nacional
B) – Campeonato Nacional relevante
5. Súmula


1. ANÚNCIO DA CONVOCATÓRIA PARA A SELECÇÃO OLÍMPICA FEMININA

Em 12 de Julho de 2008, a FPX divulgou a convocatória para a selecção feminina que disputará as Olimpíadas, entre 12 e 25 de Novembro, em Dresden.
A FPX laborou atempadamente, pois que apesar de ter anunciado a convocatória naquela data, só no dia 12 de Setembro, sexta-feira, é que termina o prazo para a apresentação das equipas – cfr. a pergunta feita a Ivanchuk, a 3.ª de uma entrevista publicada no site da organização.

Aquela comunicação da convocatória, assinada pelo Presidente da Direcção, dizia assim, na parte interessante:

Foram nomeados para capitão de equipa da selecção absoluta, Joaquim Durão e para capitã de equipa da selecção feminina, Armanda Plácido. Da aplicação dos critérios estabelecidos resultou a constituição das selecções abaixo descrita. Relativamente à quinta jogadora da selecção feminina, a primeira jogadora a cumprir todos os critérios para esse lugar foi Armanda Plácido que já havia sido nomeada capitã de equipa, acumulando assim as funções.

O ficheiro olimpiadadresden-12jul2008.pdf deixou de estar online aquando da recente “lipoaspiração” do site, nele se podendo constatar que a diferença da 4.ª para a 5.ª jogadora (e capitã de equipa) era de cerca de 250 pontos, um salto não despiciendo (450 para a 1.ª).


A) "O PAPEL DO CAPITÃO DE EQUIPA"

Ora, um primeiro ponto que me parece relevante, é o da FPX convocar, sem reservas, como jogadora, alguém “que já havia sido nomeada capitã de equipa, acumulando assim as [duas] funções”.

“Até ao Campeonato Europeu por Equipas que se disputou em Leão [2001], o papel do capitão de equipa foi bastante mal compreendido pela FPX. Tanto quanto me posso recordar, o papel do capitão era, até essa altura, pouco mais do que um papel político que não trazia qualquer benefício directo aos jogadores, e era apenas mais um exemplo do que faltava à Selecção Portuguesa quando comparada com as restantes!

Para evitar mal entendidos, é importante distinguir o Capitão do Chefe de Delegação. A chefia da delegação é uma posição política, a qual poderia ser muito bem preenchida, por exemplo, pelo Presidente da FPX, já que ele é, sempre e de qualquer modo, o principal responsável pela delegação portuguesa. Já o Capitão, por outro lado, tem apenas a seu cargo a performance desportiva da equipa e pode ser considerado parte integrante desta. Os objectivos da equipa são da sua responsabilidade.

A escolha do capitão pode ter uma importância decisiva na motivação dos atletas para jogarem ao seu melhor nível, coexistirem pacificamente e funcionarem como uma equipa (a coesão colectiva é uma matéria muito investigada na moderna psicologia do desporto). Em teoria, duas equipas de força igual alcançam resultados diferentes dependendo das capacidades do seu capitão. A prática confirma-o.

O Capitão deve:

- respeitar e ser respeitado por todos os elementos da equipa;
- ser capaz de unir a equipa e providenciar um ambiente satisfatório para todos os elementos (de maneira a que queiram tomar as refeições juntos e descansar em conjunto depois dos jogos);
- ser capaz de tomar decisões justas e imparciais e coordenar esforços;
- ser capaz de antecipar eventuais conflitos, resolver problemas (de preferência por consenso) e atenuar as diferenças entre os membros da equipa, se elas surgirem;
- ser capaz de retirar o melhor que cada elemento da equipa pode dar ao grupo;
- estar disponível e ser capaz de ajudar os atletas a preparar as suas partidas.

Tenho experiência quer como capitão-jogador quer como capitão em exclusividade, e com o passar dos anos tenho constatado que é melhor para uma equipa ter um capitão em regime de exclusividade (…).”



Este texto não é, obviamente, meu. Trata-se de um excerto de uma reflexão do GM Kevin Spraggett sobre a participação da selecção nacional no Campeonato Europeu por Equipas de Leão, disputado em 2001, em que desempenhou funções de capitão em regime de exclusividade, intitulado “Some thoughts about the players”. O documento está disponível no seu site pessoal, foi endereçado à FPX em Dezembro de 2001 e, aparentemente, está lá perdido numa gaveta qualquer… (ou então foi deliberadamente desconsiderado)


B) A CARTA ABERTA

Sem mais considerações, tendo em conta o que um jogador da experiência e classe do GM Spraggett defendeu, limito-me a reproduzir alguns excertos da Carta Aberta a Maria Armanda Plácido, de Francisco Vieira:

- “No passado dia 9/8, durante a 1ª sessão da fase preliminar do Camp. Nacional Indiv. Absoluto, na Amadora, a Sra. Maria Armanda entendeu não cumprimentar a Ana Baptista, a recente campeã nacional feminina. A própria Ana ficou estupefacta com tal atitude, desconhecendo o que teria passado pela cabeça da Sra. Maria, para não lhe dirigir a palavra. Já não bastava não a ter felicitado pelo seu feito desportivo, agora ignora-a”;

- “Como vai a capitã da selecção nacional olímpica feminina dialogar na Alemanha com uma jogadora – e logo a campeã nacional feminina e actual jogadora nº 1 do ranking nacional, a confirmar na próxima Lista Elo FIDE de Outubro2008 – quando em Portugal não lhe dirige a palavra?”;

- “Nas circunstâncias actuais, descritas neste documento, considero um insulto ao xadrez português a integração da Sra. Maria Armanda Plácido, na selecção nacional olímpica feminina como jogadora – embora isso tenha a ver com a aplicação de regulamentos que permitem seleccionados de duvidosa valia técnica e desportiva representarem o país – e como capitã.”;

- “Isto é [sobre o abaixo-assinado subscrito pelas participantes no Nacional Feminino], as jogadoras de xadrez que conhecem bem a sua força de jogo sobre o tabuleiro, comentaram entre si e puseram em causa a sua capacidade e competência de jogadora de xadrez que também é capitã da equipa de representar o nosso país, na selecção olímpica, mas a Vice-presidente da Direcção da FP Xadrez não consegue compreender o que se está a passar e vislumbrar o seu alcance.”;

- “Até aqui discutiam-se créditos desportivos da jogadora Maria Armanda Plácido para assumir o 5º tabuleiro. A partir do post da Sofia Lança e do comportamento da senhora com a Ana Baptista, discute-se, e já publicamente, a capacidade de liderança, de seriedade e rigor da sua putativa imparcialidade.”.

A Carta termina pedindo à destinatária que “coloque os seus lugares de jogadora e de capitã da selecção nacional olímpica feminina à disposição da Direcção da FP Xadrez para que esta possa com lucidez, competência e rigor técnico e desportivo, que se exigem, evitando desta forma, manipulações grosseiras de critérios, como foi o caso presente, escolher outra pessoa (…)”.

Percebe-se porquê.


2. CRITÉRIOS PREDEFINIDOS A QUE DEVE OBEDECER A CONVOCATÓRIA

Mas a questão, a meu ver, coloca-se também a montante, na própria convocação, pela FPX, da xadrezista Maria Armando Plácido para ocupar o 5.º lugar da Selecção Olímpica Feminina.

Esta Selecção resultou "da aplicação dos critérios estabelecidos" que podiam ser consultados no site da FPX – desde a lipoaspiração do site o ficheiro “criterios_seleccoes_nacionais_dresden2008.pdf” não se encontra mais disponível, pelo menos imediatamente.

Estes critérios determinam que, além da Campeã Nacional, "têm direito a integrar a selecção feminina as restantes jogadoras de acordo com a metodologia estabelecida para o efeito para a Selecção Absoluta", com uma correcção - ponto 2, alínea b), dos ditos Critérios.

Mas não basta ser graduada numa das vagas disponíveis, de acordo com aquela metodologia, para uma jogadora poder ser convocada. Com efeito - al. c) do mesmo ponto 2 - "para poder participar na selecção nacional feminina, as jogadoras deverão ainda:

i. ter participado em pelo menos uma das duas edições anteriores do Campeonato Nacional Absoluto, ou em alternativa no Campeonato Nacional Feminino, na época em curso ou anterior

ii. ter um mínimo de 30 partidas contabilizadas para ELO FIDE no total das 6 listas de ELO referidas em 1b) do ponto 1 deste artigo

iii. Não estar suspensa, nem ter sido objecto de sanção disciplinar determinada pela FPX na sequência de anterior representação nacional, se tiver ocorrido numa das 3 épocas anteriores ou na época em curso.“


3. CONVOCATÓRIA PARA A SELECÇÃO OLÍMPICA PORTUGUESA - DRESDEN 2008

Na mesma notícia em que foram divulgados aqueles Critérios, a FPX publicou "a classificação [das jogadoras] tendo por base [as performances mais recentes - publicadas no mesmo post] e os [preditos] critérios das selecções nacionais".

A lista final é a seguinte, na parte interessante:

Classificação Feminina
1. LEITE, CATARINA (..) 2199
2. PINTOR, ARIANA (...) 2132
3. BAPTISTA, ANA (...) 2119
4. COIMBRA, MARGARIDA (...) 2107
5. JEREMIAS, BIANCA (...) 2001
(…)
9. PLÁCIDO, MARIA ARMANDA (...) 1708
(...)



Assim, foi convocada a 9.ª jogadora graduada, apesar da performance inferior, por se entender que a 5.ª ordenada não “participou em pelo menos uma das duas edições anteriores do Campeonato Nacional Absoluto, ou em alternativa no Campeonato Nacional Feminino, na época em curso ou anterior”.


4. ANÁLISE DA CONVOCATÓRIA

Parece-me que a situação deve ser analisada do seguinte prisma:

1) Os critérios da FPX visam a determinação das jogadoras mais fortes através da aplicação de uma metodologia que revela a performance de cada uma das seleccionáveis;

2) Tal performance não é suficiente. Para ser considerada, é necessário que passe o crivo da “competitividade”: resumidamente, exige-se que as jogadoras tenham jogado mais de x partidas em y tempo e que tenham defrontado as outras seleccionáveis numa competição - um dos 2 últimos campeonatos nacionais femininos.

Isto é, as jogadoras seleccionadas seriam as com melhor performance, desde que jogassem muitas partidas e se batessem com as outras “seleccionáveis”. Os regulamentos (o dos critérios e o da representação nacional) exigem a “participação” das jogadoras em pelo menos uma das duas edições anteriores do Campeonato Nacional (…), na época em curso ou na anterior.


A) "PARTICIPAÇÃO" NO CAMPEONATO NACIONAL

O cerne da questão está nos timings e no que quer dizer “participar” – já LNunes, há tempos, chamava a atenção para isto, na LusoXadrez - “Para já, "participar" não se sabe bem o que é, se é inscrever, se é não poder dar faltas de comparência, se é fazer metade dos jogos...

Parece-me indiscutível que a aplicação dos critérios de selecção – um regulamento adoptado por uma Federação Desportiva dotada de Utilidade Pública, como, aliás, o Regulamento da Representação Nacional – é matéria jurídica. E, assim sendo, no seguimento do pensamento do Professor Castanheira Neves, o preenchimento do conceito há-de ser encontrado através da interpretação jurídica do dito regulamento. (Também o Professor Freitas do Amaral, em recentíssimo parecer relativo à confusão gerada no Conselho de Justiça da Federação Portuguesa de Futebol, igualmente dotada de Utilidade Pública Desportiva, para preencher o conceito “tumultuosamente” [“São, designadamente, actos nulos As deliberações de órgãos colegiais que forem tomadas tumultuosamente ou com inobservância do quórum ou da maioria legalmente exigidos” – artigo 133.º, n.º 2, al. g), do CPA] não abdica do método interpretativo, apesar de se socorrer, inicialmente, da etmologia e dos dicionários – cfr. “A crise no Conselho de Justiça da Federação Portuguesa de Futebol”, Almedina, 2008).

Abreviando razões, que o post já vai longo, uma vez que, nos preditos termos, a convocatória não depende da classificação no campeonato nacional mas, antes, da tal performance calculada de acordo com uma metodologia própria (havendo outros requisitos cumulativos importantes), creio que o conceito “participar” significa, naqueles Critérios, jogar com outras seleccionáveis. Tão só isso.

E, assim sendo, para este caso da convocação da selecção feminina, a inscrição de uma atleta na prova preenche aquele conceito de “participação”, atento o calendário complicado em que a Federação teve que se mover. (toda a gente sabe como é complicado organizar o calendário de uma época desportiva)

É que, antes de terminar o prazo para a pré-inscrição da constituição das equipas junto da FIDE – o que aconteceu, parece-me, no dia 12 de Julho – cfr. a notícia da chessbase de 22 de Maio –, a FPX já sabia que a Bianca Jeremias, 5.ª ordenada da lista de seleccionáveis, ia participar no Nacional.

Com efeito, no regulamento desta última prova, datado de 16 de Junho (depois, portanto de se saber que a deadline para apresentação da equipa era 12 de Julho), determina-se que a inscrição no Campeonato Nacional Feminino deveria ser efectuada até 10 de Julho – cfr. art. 9.º do Regulamento do Campeonato Nacional Feminino 2007-08 (antes disponível em
http://fpx.weebly.com/uploads/1/3/7/1/137131/reg_cnfeminino2007-08.pdf).

Ou seja, os serviços sabiam que a Bianca ia participar no Campeonato Nacional que se iniciaria no dia 14 antes de terminar o prazo para comunicação da composição da equipa.

E, atentos critérios de selecção – repete-se: performance calculada de acordo com uma metodologia própria para ver a força de jogo das xadrezistas, n.º de partidas jogadas para saber se estão em forma e participação no nacional para se bater com outras seleccionáveis – a inscrição na prova deveria preencher o conceito de “participar”, para este efeito de convocação, dada a razão de ser de cada um dos critérios de selecção: a participação no Nacional serve apenas para ver as seleccionáveis em acção – o que também é garantido pelo n.º mínimo de partidas -, sendo que é a performance que ordena as seleccionáveis, não o campeonato.

Poderia objectar-se com o facto de, apesar de se inscrever, não haver garantias de que a Bianca iria efectivamente jogar algum jogo no Nacional (logo não se bateria com as outras seleccionáveis), o que não lhe dava direito a estar na Olimpíada mas sem haver tempo útil para desfazer o erro.
Neste cenário hipotético, a situação seria resolvida com um procedimento disciplinar: a jogadora tinha-se inscrito mas não concluíra a prova, pelo que teria que arcar com as consequências do seu acto que, no mínimo, seria a sua exclusão da selecção nacional. Recorde-se que as equipas podem alterar a sua constituição até sexta-feira, dia 12 de Setembro! Havia (há!?) tempo útil para tudo, pois!


B) CAMPEONATO NACIONAL RELEVANTE

Também se encontra algum respaldo literal para esta conclusão.

Dizem os critérios federativos que “para participar na selecção nacional feminina, as jogadoras” devem “ter participado ou participar em pelo menos uma das duas edições anteriores do Campeonato Nacional Absoluto, ou em alternativa no Campeonato Nacional Feminino, na época em curso ou anterior”.

Isto é, as jogadoras devem ter participado ou participar, em alternativa ao Campeonato Nacional Absoluto, no Campeonato Nacional Feminino, na época em curso ou anterior. Que época desportiva? A época em curso ou a anterior à participação na selecção nacional feminina.

Sendo que essa participação terá lugar em 2008/2009, época em que ainda não terá sido disputado nenhum daqueles Campeonatos Nacionais e, consequentemente, o único relevante será o da época 2007/2008… no qual a actual 5.ª jogadora seleccionada, Maria Plácido, não participou, ao contrário da preterida Bianca Jeremias.


Termos em que parece haver suporte regulamentar para que a Bianca fosse convocada.

Sendo que, recorde-se uma vez mais, tal situação pode ser corrigida pela FPX até sexta-feira (sendo que já está na posse da maior parte destes elementos desde Julho e não é conhecida qualquer decisão).


5. SÚMULA

- A conduta da Capitã da Selecção Olímpica Feminina, tal como descrita por Francisco Vieira, está em frontal desacordo com o papel reservado àquele cargo, tal como preconizado pelo GM Kevin Spraggett.

- Para efeitos de aplicação dos Critérios de Selecção para a Olimpíada de Dresden e consequente convocação, o conceito “participação” é preenchido pela mera inscrição no Campeonato Nacional Feminino, uma vez que, atentos os vários critérios cumulativos de selecção – performance calculada de acordo com uma metodologia própria para ver a força de jogo das xadrezistas; n.º de partidas jogadas para saber se estão em forma e participação no nacional para se bater com outras seleccionáveis; participação num recente Campeonato Nacional – este último serve apenas para ver as seleccionáveis em acção – o que também é garantido pelo n.º mínimo de partidas -, sendo que é a performance que ordena as seleccionáveis, não a classificação final do campeonato. Ou seja, com a inscrição a jogadora garante a participação na prova, para efeitos de convocação e sob pena de procedimento disciplinar.

- Por outro lado, dizem os critérios federativos que “para participar na selecção nacional feminina, as jogadoras” devem “ter participado ou participar em pelo menos uma das duas edições anteriores do Campeonato Nacional Absoluto, ou em alternativa no Campeonato Nacional Feminino, na época em curso ou anterior”.
Isto é, as jogadoras devem ter participado ou participar, em alternativa ao Campeonato Nacional Absoluto, no Campeonato Nacional Feminino, na época em curso ou anterior. Que época desportiva? A época em curso ou a anterior à participação na selecção nacional feminina.
Sendo que essa participação terá lugar em 2008/2009, época em que ainda não terá sido disputado nenhum daqueles Campeonatos Nacionais e, consequentemente, o único relevante será o da época anterior (2007/2008)… no qual a actual 5.ª jogadora seleccionada, Maria Plácido, não participou, ao contrário da preterida Bianca Jeremias.

- A convocatória pode ser corrigida pela FPX até sexta-feira, 12 de Setembro (sendo que já está na posse da maior parte destes elementos desde Julho e não é conhecida qualquer decisão).

- Creio, pois, que a Bianca Jeremias, atentos os ditos critérios federativos, deveria preencher – por mérito próprio - a última vaga da selecção. E que a Direcção da FPX, apontadas as contradições entre os textos do GM Kevin Spraggett e do Francisco Vieira, deve nomear nova capitã.