terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Kasparov, xadrezista e activista pelos direitos humanos.


Aproveitando o video disponibilizado pelo Viriatovitch Chess, volto a Kasparov, uma personalidade que não deixa ninguém indiferente.





De outro filme trata a notícia de hoje do jornal britânico


O filme de Kasparov: do xadrez para a política
Na estreia de um filme sobre a batalha de Garry Kasparov para a presidência da Rússia, o campeão contou a Geoffrey Macnab por que é que ela terminou afogada.

A primeira vez que vi Garry Kasparov em carne e osso foi numa tarde de Outono, em 1993, durante o match para o Campeonato do Mundo, contra o candidato inglês, Nigel Short, que teve lugar no Teatro Savoy, em Londres.



A ocasião teve um momento caricato. Depois de os jogadores fazerem os primeiros lances da abertura, ambos desapareceram para os camarins e o público ficou a olhar para um palco vazio com um tabuleiro de xadrez, durante um período que pareceu anormalmente longo. Claro que Kasparov venceu Short, ele que ainda hoje é considerado um dos mais fortes xadrezistas de sempre. Lembro-me do seu ar absorto quando olhava para o público enquanto a audiência se divertia, de forma contida, com as piadas que os comentadores nos transmitiam para os phones.

Era difícil não me lembrar desse palco vazio no mês passado, em Amesterdão. Kasparov estava na cidade para ver o filme In the Holy Fire of Revolution [No Fogo Sagrado da Revolução], de Masha Novikova, no IDFA - International Documentary Film Festival Amesterdam, uma obra sobre a tentativa falhada do xadrezista se apresentar às eleições presidenciais russas do ano passado.
Tratou-se de uma experiência arrasadora. Kasparov era o candidato da Outra Rússia, uma coligação de partidos da oposição a Vladimir Putin, e foi importunado em todas as fases do processo. No filme podemos ver grupos de jovens ultra-nacionalistas a caricaturar Kasparov de papagaio estado-unidense. Esses grupos seguiam-no para todo o lado. As suas acções de campanha foram interrompidas. Foi-lhe negado o acesso aos meios de comunicação social. A certa altura, foi detido pela polícia e passou cinco dias na prisão. Antigos amigos abandonam-o ("Muita gente esqueceu que eu existia. Agora sei exactamente qual o valor da amizade", diz Kasparov). Ironicamente, uma das poucas pessoas que o tentou visitar na prisão foi o antigo arqui-inimigo do circuito xadrezístico, Anatoly Karpov. Testemunhámos a rapidez com que a campanha de Kasparov colapsou.



O "The Holy Fire of Revolution" é a versão russa, mais apagada, do "The War Room", o documentário sobre a campanha de Bill Clinton para a presidência dos EUA, em 1992. No entanto, enquanto Clinton tinha uma máquina eleitoral muito bem oleada, com estrategas e comunicadores que contornavam os escandalos utilizando os media para o favorecer, a campanha de Kasparov pareceu condenada quase desde o início. As câmaras filmaram acções de campanha que foram sabotadas pelas forças de segurança. Vê-se os funcionários do Governo que controlam o staff de Kasparov, que parecem seguranças de discotecas, a falar da sua lealdade e afeição por ele. Os apoiantes partilham estórias chocantes sobre as formas como foram intimidados e ameaçados.

O filme é a gravação de uma campanha política que nunca foi autorizada a passar da primeira mudança. Não há um final épico que Novikova pudesse colocar no seu material. Afinal, Kasparov acabou por ser obrigado a desistir da sua caminhada presidencial.

"Duvido que ele apareça", avançou um dos organizadores do Festival, na véspera da data combinada para a chegada de Kasparov a Amesterdão. Mas Kasparov acabou por conseguir comparecer. Para o xadrezista, estar no Ocidente é claramente um alívio. Por um dia ou dois consegue escapar das atenções das organizações juvenis que apoiam o regime de Putin. "Eles tornam-lhe a vida impossível", diz-me Novikova, acrescentando que até o filho de Kasparov precisa de ser acompanhado por guarda-costas quando vai para a escola. O próprio Kasparov está sob vigilância 24 horas por dia, e os seus telefones estão sobre escuta. A sua imagem pública está a ser alvo de um ataque de propaganda que visa desacreditá-lo.



A coragem de Kasparov é inegável, mesmo que se questione se ele será tão competente na política como é no tabuleiro. Numa altura em que os jornalistas russos são intimidados e assassinados, Kasparov tomou a iniciativa de denunciar o regime de Putin, sendo consistente na sua mensagem ao denunciar a falta de empenho dos países do Ocidente no combate às violações dos direitos humanos na Rússia. Kasparov é cristalino nos seus ataques aos oligarcas que acusa de abafar a economia, enquanto espera que a crise económica actual possa acordar os seus compatriotas e terminar com a sua apatia, duvidando que Putin e o Presidente Dimitry Medvedev gozem efectivamente de apoio popular.
Como o filme torna claro, Kasparov está a pagar um preço elevado pela sua campanha contra o Kremlin. Anda sempre acompanhado por guarda-costas e há um receio real de que possa sofrer o mesmo destino que Anna Politskovaya ou Paul Klebnikov, jornalistas que foram assassinados.

As características que fazem um excelente xadrezista não são claramente as mesmas que fazem um político de sucesso. A intensidade cerebral que conduziu Kasparov no tabuleiro ainda é evidente, mas parece faltar-lhe a flexibilidade e o charme necessário a um político.

Quando Kasparov chega finalmente a Amesterdão, teve o mesmo comportamento que demonstrava nos seus torneios de xadrez. Activo e articulado, falou em ritmo acelarado, como se o relógio estivesse a contar. "O que se vê no documentário é, infelizmente, o quotidiano daqueles que se opõem à ditadura na Rússia... é um material bastante educativo para aqueles que ainda acreditam que a Rússia de Putin pertence ao arco dos países democráticos. Infelizmente, já estamos no campeonato do Irão, de Cuba, da Bielorússia e outros que tais", foi a sua declaração inicial.



Kasparov acredita que 85% da população russa sofre devido ao regime de Putin. Apesar de o campeão falar sobre si mesmo, ao estilo de Júlio César, na terceira pessoa, ele também insiste que a sua carreira política não é conduzida pelo egoísmo. "Não é sobre mim, Garry Kasparov, pessoalmente", declarou. "A Rússia é um Estado autoritário. É muito rígido. A censura está cada vez mais dura... como se se tratasse da União Soviética, o regime KGB combate o espelho. Se não gostam dos factos, os factos têm que desaparecer. Não gostam do que Garry Kasparov diz ou faz, pelo que ele não existe na televisão estatal russa".

Kasparov diz que não tem ilusões sobre os problemas que teria que enfrentar quando se lançou na sua carreira política. Em alguns casos, as suas ambições políticas são bastante modestas. Não quer o poder. Como ele diz, "não estamos a tentar vencer as eleições, estamos a tentar ter eleições". Para haver verdadeiros candidatos da oposição nos boletins de voto e para que eles possam fazer campanha em liberdade é o primeiro objectivo - e nesta altura, mesmo isto, é um sonho. "No xadrez, como na política normal, é uma questão de ganhar ou perder. O que estou a fazer não tem nada a ver com ganhar ou perder. É um imperativo moral - lutar pela democracia e pelos direitos humanos!"

1 comentário:

Anónimo disse...

Os gênios se fazem pelo talento com que empreendem algo, mas os mitos vão além, têm coragem de arriscar o prestígio, a liberdade e até a vida para defenderem idéias e ideais. Kasparov sai da categoria de gênio do xadrez e vira mito da humanidade. Xeque mate!